Tem gente que tira de letra

O futebol é, em muitos aspectos, um esporte de especialistas: cobradores de falta, batedores de lateral para a área, cabeceadores, artilheiros oportunistas, goleiros pegadores de pênaltis e tantos outros. Além disso, existem especialistas em algumas jogadas específicas que, por serem menos comuns, transformam-se em momentos de verdadeiro luxo que ficam impressos na memória de cada torcedor.

Um desses lances que exigem do jogador grande habilidade e rapidez é o toque de letra. Para quem não conhece, trata-se da jogada em que a bola chega no "pé ruim" e, em vez de parar e ajeitar para o outro lado, o jogador decide passar o "pé bom" por trás da perna de apoio para dar o chute.

Conhecida no Brasil também como "chaleira", a jogada voltou a ter destaque nos gramados sul-americanos pelos pés do argentino Matías Urbano, que a usou para anotar dois gols em duas partidas consecutivas na semana passada pelo Unión San Felipe do Chile. Os vídeos causaram sensação na internet e passaram por centenas de programas esportivos, gerando a inevitável discussão: quando e por quem foi inventado o toque de letra?

O FIFA.com examina a história e as características da jogada desde vários pontos de vista e destaca alguns dos grandes jogadores que souberam tirar proveito dela, desde Pelé, passando por Diego Maradona e chegando ao alemão Thomas Müller.

Infância e rebeldia
Entre os argentinos, e em boa parte do mundo, o gol de letra é conhecido como rabona. A expressão, que significa literalmente faltar a uma aula sem consentimento dos pais, acabou sendo consagrada em função de um gol marcado por Ricardo Infante, do Estudiantes de La Plata, em 1948. Como infante também significa criança e o lance foi encarado como um ato de rebeldia, a imprensa não perdeu a oportunidade de brincar com as palavras e consagrar um novo significado para o termo. 

"Jamais imaginei que conseguiria tocar a bola no ângulo", recordou 50 anos depois o próprio Infante, que se consagrou como o sexto maior goleador da história do futebol argentino. "Aquele gol não teve a repercussão que merecia, pois não existia televisão, e a imprensa não cobria todas as partidas."

Na Itália, o lance tem outro nome e ganhou notoriedade apenas 30 anos depois, pelos pés de Giovanni Roccotelli. O jogador utilizou o artifício em janeiro de 1978, ao dar um toque para o companheiro Giacomo Tafuro balançar as redes pelo Ascoli contra o Modena.

"Em Bari, nos anos 50, ter uma bola era um privilégio", relembrou Roccotelli em entrevista no ano de 2007. "Um dia, jogando na rua, a bola caiu no meu pé esquerdo, e, não sei por qual motivo, preferi passar a perna direita por trás para chutar. Chamamos a jogada de incrociata, que é cruzar algo, como pernas ou braços."

No Brasil, é difícil afirmar a origem das denominações adotadas. Mesmo assim, o torcedor de futebol está acostumado a ver a jogada pelos pés de jogadores do passado como Pelé e Zico e do presente como Rivaldo e Robinho. 

Defeito ou virtude
Agora famoso, o jogador do Unión San Felipe defende-se de quem o critica por enfeitar demais o lance. "Não faço a jogada como firula", afirma Urbano. "Nunca chego a premeditá-la, mas confesso que a treino. Posso dizer que os gols foram fruto do meu trabalho."

Uma das principais referências do jogador do Unión San Felipe é o ex-centroavante argentino Claudio Borghi, hoje treinador da seleção chilena. "No meu caso, foi um defeito que se transformou em virtude, já que eu não tinha a canhota", destaca o atacante campeão mundial de 1986, que cresceu vendo Maradona aplicar a rabona pelo Argentinos Juniors. "É muito bonito colocar a bola onde se quer porque surpreende. E, como em toda jogada inesperada, causa problemas ao rival."

O próprio Maradona não costumava marcar gols de chaleira, mas atacantes como o argentino Ramón Díaz ou o brasileiro Careca, que jogaram com ele, podem atestar os cruzamentos perfeitos que o "Pibe" conseguia fazer graças ao movimento.

Outro argentino canhoto que toca de letra com precisão é Ángel di María. Ele soube demonstrar a habilidade quando esteve no Benfica, clube pelo qual anotou um gol de chaleira em partida da Liga dos Campeões, e agora mesmo no Real Madrid, pelo qual já usou o artifício para dar duas assistências precisas.

Também na Espanha, e com certa constância, outro jogador a praticar a chaleira é o barcelonista David Villa. Mas especialista mesmo é o português Ricardo Quaresma, que já demonstrou habilidade para cruzar a bola de letra de ambos os lados do campo e chegou até mesmo a criar um tutorial que pode ser encontrado na internet.

Por outro lado, para demonstrar que a jogada não é exclusividade dos latinos, o jovem alemão Thomas Müller resolveu dar uma de professor. Também na internet, o artilheiro e revelação da última Copa do Mundo da FIFA aconselha que a jogada não seja usada para provocar o rival, até para evitar uma entrada dura como resposta.

Para o bem ou para o mal
É óbvio que um bom toque de letra pode deixar uma marca indelével — que o diga o brasileiro Edu Manga, ex-Palmeiras e Corinthians. "Em 1991, jogava no América do México e treinava a jogada constantemente, mas nunca conseguia, até que dei um toque espetacular em um cruzamento para que o meu companheiro Toninho fizesse um gol em um clássico contra o Cruz Azul diante de 110 mil pessoas. Ainda hoje todos se lembram."

Um belo gol de letra também pode ter consequências imprevistas. Em 2007, dia da estreia pelo IFK da Suécia, o peruano Andrés Vásquez acertou uma bola de chaleira do canto da grande área e marcou um golaço que acabou rendendo fama no país sul-americano e até uma eventual convocação à seleção.

Algo parecido aconteceu mais recentemente com o kuwaitiano Fahad Al Enezi, cujo lance de letra em amistoso contra a Arábia Saudita serviu de cartão de visitas para a transferência ao clube saudita Al Ittihad.

A jogada já tem até um "subproduto": a falsa chaleira. O movimento é semelhante, mas, em vez de acertar a bola, o jogador busca distrair o adversário para continuar o drible em velocidade. Os especialistas? Cristiano Ronaldo, Matías Fernández e Ronaldinho Gaúcho.

A chave para ser um especialista está, provavelmente, na conclusão do tutorial de Müller: treinar dia após dia e tentar não torcer o tornozelo ao fazê-la. Sem dúvida, a chaleira não é para qualquer um, e a tentativa pode acabar sendo embaraçosa, como já aconteceu com o australiano Nick Carle e o inglês David Dunn.

Enquanto Carle acabou esparramado junto à linha de fundo em uma partida contra o Uruguai, Dunn tropeçou nas próprias pernas ao defender o Birmingham no clássico local contra o Aston Villa — prova de que um dos lances de maior beleza plástica do futebol também pode ter consequências bizarras.