Com a palavra, Hidalgo
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Michel Hidalgo não fará companhia a Aimé Jacquet no panteão dos técnicos franceses que se sagraram campeões do mundo. Em matéria de popularidade, porém, os dois treinadores dos Bleus estão lado a lado.

No comando da França entre 1976 e 1984, Hidalgo é o homem que conduziu a nação à elite do futebol mundial, classificando-a para duas edições seguidas da Copa do Mundo da FIFA e conquistando o primeiro título importante do selecionado, na Euro 1984.

Embora tenha sido um grande jogador, vencendo o Campeonato Francês com o Reims (em 1955) e com o Monaco (em 1961 e 1963), foi no banco da equipe nacional que Hidalgo entrou para a história. O "quadrado mágico" idealizado pelo técnico — um meio de campo formado por quatro meias de criação, Michel Platini, Alain Giresse, Jean Tigana e Bernard Genghini — conferiu à França uma verdadeira identidade dentro das quatro linhas.

Dono de uma personalidade fascinante e decidida, Hidalgo permanecerá para sempre no coração dos franceses. As lágrimas que ele derramou ao ser carregado pelos campeões europeus de 1984 são tão célebres quanto o grito com que censurou o xeique kuwaitiano que invadiu o campo exigindo a anulação de um gol da França no Mundial de 1982. Para aumentar a lenda, o ex-diretor de futebol do Olympique de Marselha foi vítima de uma tentativa de sequestro antes da Copa do Mundo da FIFA 1978. Livrou-se do apuro desarmando e afugentando os raptores.

Considerado como pai por jogadores e como herói pela torcida, Hidalgo é também, e acima de tudo, um poeta do futebol. A forma com que o técnico fala do esporte das multidões pode ser comparada com a maneira como jogavam as equipes que ele montou: ambas convidam a sonhar. O FIFA.com relembra agora as suas frases mais famosas.


"No futebol, a inteligência é mais importante do que as instruções."

Sobre a importância dos jogadores criativos

"Falta a essa seleção da França aquilo que adoramos: a audácia e o brio. Essas palavras são tabu? Sonho com um futebol sorridente. Sorriso e criatividade. A beleza é compatível com a eficiência. É burrice, sei disso, mas não mudo de opinião."
Em fevereiro de 1994, sobre a renovação dos Bleus após a eliminação no torneio classificatório para o Mundial dos Estados Unidos

"Nunca falei com os meus jogadores sobre resultado. Nunca! Sempre disse a eles que pensem no jogo, porque, com isso, os resultados virão por si sós. Fui jogador, técnico e espectador, e sempre pensei dessa forma. Se me tomam por poeta ou ultrapassado, azar!"
A filosofia de Hidalgo, que se tornou a marca da geração de Platini

"Com o Jean-Pierre Papin na frente ganharíamos o Mundial de 82."
O dilema de Hidalgo: com grandes meio-campistas, a França não tinha grandes atacantes; e com um grande atacante, não teria mais um grande meio de campo

"A classificação dos dois times da França é emocionante, mas não nos deixemos levar pelo entusiasmo. O futebol alemão continua sendo o que era há 15 dias: algo bem diferente do futebol francês."
Em dezembro de 1980, depois que Sochaux e Saint-Etienne eliminaram clubes da Alemanha na Taça da UEFA

"Vou continuar tentando construir o clube. Dinheiro é o que não falta. Em termos de público e de títulos, o OM é um dos maiores clubes da França. No entanto, tudo foi erguido sobre areia. Não há nada aqui."
Ao ser nomeado diretor de futebol do Olympique de Marselha, em 1986

"Não é possível formar um camisa dez. É o instinto que predomina. Ele é sempre a garantia de uma certa qualidade no jogo. Com três juntos, então, os problemas dentro de campo se resolvem por si sós."
Sobre os meias de criação e o "quadrado mágico"

"Basta dessa história de coletivo: o futebol de hoje é complexo demais. Estão matando a poesia! Onde ficam a imaginação, o instinto, o faro, a intuição? Alguns técnicos falam de números, estatísticas, porcentagens... não passam de técnicos de feira livre."
Análise de Hidalgo sobre o progressivo desaparecimento dos artistas em proveito dos operários

"A seleção da França já não me dá prazer. Lamento profundamente, mas gosto tanto da camisa azul que o perdoo."
Em 1992, sobre a gestão de Gérard Houllier como técnico

"O Michel era uma lanterna mágica. A imaginação no poder!"
Sobre Michel Platini, capitão de Hidalgo em 1984

"Até os pés do Platini são inteligentes."
Outra homenagem, mais prosaica, ao mesmo craque

"Eu tinha montado um grupo de homens fortes, durões. E, dessa vez, me deparei com crianças que choravam."
Sobre a derrota na épica semifinal do Mundial de 1982, contra a Alemanha Ocidental

"Dizem que é um sistema democrático, mas acho que é uma democracia muito relativa. As pessoas se apegam ao que têm. Mudar as estruturas, tudo bem. Mas são sempre as pessoas que fazem as estruturas."
Em 1994, sobre a necessidade de reorganização da Federação Francesa de Futebol após a eliminação dos Bleus contra a Bulgária

"Para treinar a seleção francesa, é preciso ser apaixonado pelos Bleus e zelar pelo futebol ofensivo e pelas jogadas bonitas, para mostrar isso ao mundo. Afinal, estamos representando um país!"
Análise de Hidalgo sobre o cargo de técnico da seleção

"Quando ganha, o técnico é Luís XIV, o Palácio de Versalhes e a Galeria dos Espelhos. Quando perde, é Luís XVI e a guilhotina."
Outra análise sobre o mesmo cargo

"As comparações são sempre perigosas. Sabemos, por exemplo, que a ciclista Jeannie Longo superou o Fausto Coppi no recorde da hora."
Sobre as comparações entre gerações

"Hoje jogam com três volantes e um camisa dez. Eu jogava com três camisas dez e um volante!"
Não se pode comparar gerações de jogadores, claro, mas se pode comparar os estilos de jogo

"O nosso sonho era chegar pelo menos à final — o que é completamente idiota, porque não há nada pior do que perder na final."
Sobre a Euro 1984, vencida pelos franceses

"Tem uma coisa de que eu não gosto: o jogador de vestiário. Ainda não entendi o que isso significa. Eu gosto é de jogador de campo."
O segredo de Hidalgo na montagem de uma seleção

"Os grandes times morrem quando desaparecem os jogadores criativos."
Hidalgo, defensor fervoroso do camisa dez à moda antiga