
Após 52 anos de ausência, é sob o comando de Stuart Pearce que a Grã-Bretanha se prepara para voltar ao Torneio Olímpico de Futebol Masculino em Londres 2012. Anfitriões da festa, os britânicos esperam tirar proveito do fator campo para retornar ao pódio no aniversário de um século do último ouro na disciplina.
O ex-jogador do English Team e comandante de longa data do selecionado sub-21 da Inglaterra conversou em exclusividade com o FIFA.com às vésperas da estreia da seleção olímpica, na próxima quinta-feira, contra o Senegal.
O treinador falou da atmosfera especial em torno do evento, do benefício de contar com jogadores experientes como Ryan Giggs e de como os britânicos terão de fazer valer a vantagem de competir em casa.
FIFA.com: De todos os torneios que você disputou como técnico, este será de longe o mais importante. Houve alguma preparação especial?
Stuart Pearce: Para falar a verdade, não. Acho que o único aspecto um pouco diferente é que as outras competições de que participei ocorreram no final da nossa temporada, então o treinamento sofreu uma pequena adaptação. Tivemos uma boa experiência no ano passado, com a Copa do Mundo Sub-20 da FIFA na Colômbia, que foi disputada na mesma época deste torneio. Eu e quase toda a minha comissão técnica estivemos lá, portanto agora podemos nos valer dessa experiência. No geral, a preparação tem sido bastante parecida. Eu diria que a única diferença está no trabalho físico mais pesado em comparação com outros torneios.
Qual tem sido a sua prioridade nos treinamentos, considerando o limitado tempo de trabalho: acertar a tática, entrosar a equipe ou estudar os adversários?
Acho que um pouco de tudo. No que diz respeito ao condicionamento físico, precisamos deixar os jogadores tinindo antes da partida contra o Senegal. Sabíamos que a seleção ainda não estaria pronta para os jogos diante de México e Brasil, mas, contra o Senegal, precisamos chegar com tudo.
Qual foi o critério utilizado para selecionar os jogadores acima de 23 anos?
Foi simples, na verdade. Primeiro, escolhemos os jogadores que tinham idade olímpica e depois analisamos o grupo para ver onde estavam os pontos fracos. Foi por isso que decidimos convocar Craig Bellamy para o ataque e Micah Richards para a defesa, além de Ryan Giggs, que fez uma temporada espetacular. Podíamos levar três jogadores. Era uma simples questão de colocar os jovens selecionados no papel e analisar onde éramos fortes e onde estavam as fraquezas. Depois disso, resolvemos reforçar a espinha dorsal da equipe.
Comparando com o habitual trabalho na seleção sub-21, é uma vantagem poder contar com esses jogadores experientes no elenco?
Ryan Giggs é o capitão e tem participado das reuniões da comissão técnica para discutir o treinamento e dar a sua opinião sobre os jogadores. Não faço esse tipo de coisa na equipe sub-21, ou sequer em um clube, portanto tem sido uma novidade para mim e tem dado muito certo. Acho que o Ryan também tem gostado de contribuir. Pela experiência adquirida ao longo dos anos, por tudo o que ele já conquistou no futebol e pela sua opinião sensata, que só traz benefícios para todos nós, é uma verdadeira vantagem poder contar com a presença dele.
Sabendo que seleções como Brasil, Uruguai e México vêm treinando juntas há algum tempo, você vê a Grã-Bretanha em certa desvantagem?
Estamos lidando com isso de maneira diferente. Ao contrário dos outros 15 países, não tivemos de nos classificar para estar aqui. Com as eliminatórias, naturalmente vem o entrosamento. Os técnicos tiveram mais tempo para preparar as equipes, trabalhar com os jogadores e conhecer melhor os elencos. Nesse sentido, sim, levamos uma pequena desvantagem. O que contará a nosso favor é o fato de estarmos competindo em casa. Tudo bem que jogaremos em várias cidades, mas esperamos que os torcedores venham junto para dar apoio e fazer a diferença. Acho que os nossos jogadores não sabiam muito bem o que esperar quando se apresentaram há duas semanas, mas, no momento em que eles pisaram na vila olímpica, acredito que tenham se dado conta da magnitude do evento. Temos de saber usar isso em nosso favor.
Levando em conta que os seus jogadores, e mesmo você, nunca estiveram em uma competição global como esta, que transcende as fronteiras do futebol, deve haver um sentimento de novidade, não?
Com certeza. Já disputei Copas do Mundo e Eurocopas como jogador e, é claro, campeonatos sub-21 e Copas do Mundo como técnico, mas os Jogos Olímpicos têm algo diferente. Quando converso com os jogadores, é até difícil encontrar as palavras certas. Existe algo de especial desta vez, alguma coisa maior do que aquilo com o que estamos acostumados. Não sei explicar exatamente o que é, mas de fato há algo de diferente no ar, e acho que os jogadores também sentem a grandiosidade do torneio. Agora que a Eurocopa terminou, todas as atenções estão voltadas para a Olimpíada, é a contagem regressiva. Cabe a nós estarmos preparados para fazer uma grande campanha e garantir que todos os jogos da fase de grupos tenham lotação máxima. Precisamos atrair os torcedores para termos esse apoio extra tão necessário.
Que dificuldades você espera encontrar na fase de grupos?
Para ser honesto, seria tolice subestimar qualquer adversário. Além do Suárez, que evidentemente conhecemos bem, o ataque do Uruguai tem o Cavani, que disputou a Liga dos Campeões este ano, e portanto é preciso respeitá-los. O Senegal acabou de derrotar a Espanha por 2 a 0 fora de casa, e assisti ao jogo em que conquistou a classificação contra Omã. Já os Emirados Árabes Unidos disputaram 17 partidas durante a preparação. A seleção que conquistar o título provavelmente não será apenas a melhor em campo, mas também a mais descansada, a que souber viajar melhor, evitar as suspensões, lesões e tudo o mais. Acredito que muitos fatores serão decisivos para definir o vencedor. Só pela exigência de se ganhar seis jogos em 17 dias, trata-se de um desafio enorme para qualquer país.
Como você disse, o Uruguai terá Suárez e Cavani, enquanto o Brasil contará com Marcelo, Hulk e Thiago Silva. Você acha que a Eurocopa o prejudicou um pouco no sentido de ter reduzido as opções de jogadores acima de 23 anos que poderiam ser convocados?
Sim, mas não só os acima de 23 anos. Oito jogadores com idade olímpica disputaram a Eurocopa. Tivemos a sorte de conseguir trazer o Butland para o gol. Ainda assim, são sete atletas indisponíveis que poderiam ter sido convocados, sem contar aqueles acima de 23 anos. Mas o que importa é que os nossos 18 jogadores terão uma oportunidade fantástica, embora eu possa dizer que a maioria deles teria brigado por uma vaga no grupo de qualquer forma. Agora, quando um treinador faz a convocação e reúne a equipe, ele só se importa com aqueles que estão no elenco.
O que você espera do torneio? A Grã-Bretanha tem chances reais de medalha?
Estou preparando a minha seleção para chegar à final e conquistar o ouro. Quando treinamos ou quando praticamos pênaltis, é sempre com esse objetivo em mente. Sinceramente, não acredito que qualquer treinador entre as 16 equipes tenha um pensamento diferente do meu. A história revela que a Inglaterra, ou neste caso a Grã-Bretanha, sempre vai bem quando joga em casa. Quando vencemos a Copa do Mundo em 1966, éramos os anfitriões. Na Eurocopa de 1996, ficamos a um jogo da final. O fator campo, seja onde for, faz uma enorme diferença no futebol, portanto temos de jogar bem para que a torcida esteja do nosso lado.




