Oscar Tabárez: "Um presente da vida"
© AFP

Na segunda passagem como técnico da seleção do Uruguai, Oscar Washington Tabárez é um profissional que praticamente não requer apresentação. E o reconhecimento é merecido. Desde que ele retornou ao selecionado charrua, em março de 2006, o país alcançou grandes triunfos tanto com a seleção principal como com as equipes de base.

Com base nesse trabalho, conquistas coletivas como o quarto lugar na Copa do Mundo da FIFA 2010 e o título da Copa América 2011 somaram-se a distinções individuais como o prêmio de "Campeão do Esporte" da UNESCO ou a mais recente Ordem do Mérito da FIFA. Ambos os prêmios reconhecem a contribuição de Tabárez para o desenvolvimento do esporte no Uruguai.

Um dos maiores feitos liderados pelo treinador de 65 anos foi a classificação do Uruguai para o Torneio Olímpico de Futebol Masculino pela primeira vez desde 1928, ano em que a Celeste ganhou a segunda medalha de ouro consecutiva. Nesta primeira parte de uma longa conversa com o FIFA.com, Tabárez fala sobre a participação uruguaia em Londres 2012.

FIFA.com: Para você, pessoalmente, o que significa participar dos Jogos Olímpicos?
Oscar Tabárez: Como esportista em geral e apaixonado por futebol em particular, sempre acompanhei de perto os principais eventos esportivos. E a Olimpíada, depois da Copa do Mundo, é o evento mais importante a que se pode ir. Desde a antiguidade, os Jogos Olímpicos são exemplos de desportividade e fraternidade, ligados aos sentimentos dos povos. Poder sentir isso na própria pele é como um presente da vida.

A sua primeira lembrança de uma Olimpíada está ligada ao futebol ou a algum outro evento importante do mundo esportivo?
Ao futebol, é claro. Falar sobre os Jogos Olímpicos no meu país é pensar em 1924 e 1928, ainda mais para nós que amamos este esporte. Não se esqueça de que o Uruguai, por causa dos Jogos Olímpicos, foi o primeiro país da América do Sul a competir na Europa. Apesar de não serem uma Copa do Mundo da FIFA, aquelas competições foram como verdadeiros mundiais e marcaram o início de um domínio em nível internacional, com uma invencibilidade uruguaia na primeira metade do século XX. Embora muitos depreciem dizendo que aquelas conquistas fizeram parte da pré-história, na minha opinião está comprovado que houve uma certa continuidade ou vínculo com aqueles títulos.

Muito além daquelas conquistas históricas, é o momento atual que coloca a seleção uruguaia no no centro das atenções. Como você convive com a pressão de ser favorito em Londres?
Não nos deixamos pressionar agora, assim como também não relaxamos quando a pressão estava sobre os adversários. O exemplo mais claro foi a Copa do Mundo, na África do Sul, quando todos nos descartavam pelo forte grupo em que caímos, mas mesmo assim terminamos em quarto lugar. Falar demais antes que as coisas aconteçam é importante para a imprensa e para os torcedores, mas não fica na história. O que fica é a realidade.

É verdade, mas não vai nos dizer que nas ruas de Montevidéu não lhe pedem que ganhe a medalha de ouro...
Sim, mas, com todo o respeito aos torcedores, eu tento ficar fora desse ruído. Agora, em junho, temos dois jogos pelas eliminatórias sul-americanas, e todo mundo só fala na Olimpíada. Os Jogos Olímpicos começam no final de julho e vão até meados de agosto. E terminam! Como treinador, não posso me esquecer de que o grande objetivo é a Copa do Mundo de 2014. Não me interpretem mal: no meio temos uma competição como a Olimpíada, que é prestigiada e de importância mundial, para a qual estamos nos preparando psicologicamente. Então, o objetivo é buscar o isolamento e trabalhar, porque o resto desgasta, ou pelo menos desconcentra. E isso é algo fatal para quem vai competir, especialmente em um torneio contra seleções tão grandes.

Falando dos adversários, o que significa enfrentar os donos da casa?
É um grande desafio, já que o anfitrião sempre tem, teoricamente, uma dose extra de chances. Não é pouco jogar com a responsabilidade de ser o organizador dos Jogos Olímpicos. Além disso, soma-se a tradição no futebol e o feito de participar como Grã-Bretanha, com todo o simbolismo que isso tem. Dos outros dois (Emirados Árabes e Senegal), para ser sincero, temos referências escassas e relativas, assim como as que eles têm de nós. Ninguém sabe que plantel o outro vai apresentar. No final, o futebol é que decide. Porque em nenhum outro esporte coletivo o fraco pode vencer o mais forte.

Com relação aos atletas, em que etapa está a formação do grupo que vai a Londres?
Estamos em um período de escolhas, observando atletas jovens e seguindo alguns casos pontuais. A esta altura, quanto mais jogadores se integrarem, melhor. Foi assim que começaram Suárez, Cavani, Cáceres, Ramírez, Lodeiro, Hernández, que não estavam na seleção quando começou o processo e hoje fazem parte do plantel principal. Cumprimos uma etapa com informações sobre atletas sub-23 que atuam no próprio país e agora complementaremos com uma preparação específica a partir de 18 de junho.

Qual será o critério para selecionar os três jogadores com idade acima dos 23 anos? Porque é claro que todos os craques querem participar...
Se convocarmos algum jogador acima dos 23 anos, possivelmente será para as posições onde entendemos que não temos o mínimo de potencial que queremos para uma equipe competitiva. Sabemos que todos querem participar, e por isso os colocamos na lista preliminar, mas eles sabem o que eu acabo de dizer a você. E fico feliz por ser assim — eu ficaria preocupado se um jogador uruguaio não quisesse estar em uma Olimpíada.

E você? Imaginou em algum momento que um grupo de trabalho liderado por Oscar Tabárez seria responsável por levar o Uruguai de volta a uma Olimpíada após 84 anos?
Não mesmo! Muitas vezes a realidade supera o sonho, e este é o caso. Algo semelhante ao que vem acontecendo com a seleção do Uruguai nos últimos tempos.

Na segunda parte da entrevista concedida ao FIFA.com, que será publicada na quarta-feira, 30 de maio, Tabárez fala, entre outras coisas, das eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA 2014, da Eurocopa que se aproxima, do momento atual de Diego Forlán e da participação do Uruguai na Copa das Confederações da FIFA 2013.