Antunes comanda o voo de Cabo Verde
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Estreante na Copa Africana de Nações, a seleção de Cabo Verde entrou como zebra no Grupo A. Muitos esperavam que ela não passasse da fase de grupos na África do Sul. No entanto, enquanto equipes como Marrocos, Zâmbia e Argélia já voltaram para casa, os cabo-verdianos se classificaram para as quartas de final e enfrentarão a tradicional seleção de Gana no sábado em Port Elizabeth. O FIFA.com conversou com o homem responsável pelo sucesso sem precedentes de Cabo Verde nos últimos anos: o técnico Lúcio Antunes.

Para poder se concentrar melhor nos seus deveres como técnico da seleção nacional desde julho de 2010, Antunes, 46 anos, foi obrigado a pedir licença do trabalho como controlador de tráfego aéreo no aeroporto de Praia, capital do país. Nestes pouco mais de dois anos sob o seu comando, Cabo Verde subiu do 108º lugar no Ranking Mundial da FIFA/Coca-Cola para o 70º, além de pular do 26º lugar na África para o 15º. A equipe também por pouco não se classificou para disputar a Copa Africana de Nações 2012, além de eliminar o tetracampeão Camarões de forma sensacional, garantindo vaga na edição 2013 do principal evento do futebol continental.

Mas ir longe nas eliminatórias é bem diferente de fazer sucesso na competição principal. No jogo de abertura da 29ª edição do torneio africano, os cabo-verdianos seguraram a anfitriã África do Sul em um empate sem gols. No confronto seguinte, a equipe teve um começo promissor, mas não manteve a vantagem e sofreu o empate de Marrocos a 12 minutos do fim, empatando em 1 a 1. No último jogo, completou a improvável campanha de sucesso na primeira fase ao vencer Angola, de virada, por 2 a 1. "O nosso objetivo foi cumprido", afirmou Antunes após derrotar os angolanos. "Precisávamos vencer este jogo, e agora estamos nas quartas de final. Jogamos três boas partidas. Chegamos aqui muito determinados, e estou feliz pelo que conquistamos."

Os ganeses estão entre os favoritos ao título, mas Antunes projeta o desafio de forma otimista. "Eles eram os mais fortes do Grupo B", avalia o comandante. "Estamos felizes por enfrentá-los, pois formam uma das melhores seleções da África. Nesta fase da competição, temos de nos defrontar com selecionados deste nível. Vamos simplesmente continuar trabalhando duro e tentar vencer o próximo jogo."

Ajuda de um ídolo
Um importante fator que explica o sucesso de Cabo Verde é a forte ligação afetiva entre o técnico e os jogadores, além do orgulho que todos têm de defender o país. Após a vitória sobre os angolanos, Antunes levantou uma bandeira de Cabo Verde e correu com ela em volta do campo. Durante a entrevista coletiva após a partida, ele foi abraçado pelos jogadores, que invadiram a conferência e o trouxeram para o centro da sala, cantando e dançando com o comandante. Assim que a inusitada festa terminou, o técnico retomou a coletiva cantando uma música tradicional de Cabo Verde e dedicando a vitória ao povo do país.

Um dos principais destaques do time, Guy Ramos, concorda que o espírito da equipe é uma parte importante do sucesso. "Não somos apenas um grupo, somos uma família", compara o zagueiro. "Quando você está triste, o grupo levanta o seu astral. Estou feliz com os companheiros. É como um sonho maluco. Esta é a nossa primeira participação no torneio e já estamos nas quartas de final. No entanto, para nós isso não surpreende, pois sabíamos que éramos capazes, e não há pressão sobre nós." O jogador de 27 anos, do Waalwijk da Holanda, acrescenta que Antunes sabe tirar o melhor de cada jogador. "É um bom motivador e nos deixa sempre prontos", observa.

Antunes também recebeu ajuda do técnico José Mourinho, acompanhando de perto o trabalho do português no Real Madrid por uma semana, em 2012. "Somos grandes amigos", revela. "Ficamos bem próximos por seis ou sete meses. Mas as nossas ideias sobre futebol são bem diferentes. O estilo dele não é o meu estilo, e vice-versa." O técnico do Real parabenizou Antunes em uma entrevista pela televisão. "Ele é um técnico inteligente", elogiou Mourinho. "Tem ideias próprias, é organizado, metódico e ambicioso. É um ótimo treinador."

O contrato de Antunes com a seleção acaba logo após a final da Copa Africana de Nações, dia 10 de fevereiro, mas, com a campanha histórica até agora, já é possível imaginar que ele dificilmente retomará o seu trabalho no aeroporto Nelson Mandela, passando a voos ainda mais altos com o time que ajudou a decolar. Mesmo assim, apesar do sucesso, ele avisa que não largará seus antigos campanheiros do aeroporto. "Não sei qual dos dois trabalhos prefiro, se como treinador ou controlador, mas eu certamente voltarei", garante. "Só não sei quando."