Empate eleva a ambição cabo-verdiana
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Só o fato de ter se classificado para a Copa Africana de Nações derrotando os leões indomáveis de Camarões nas eliminatórias já faz da estreante seleção de Cabo Verde a sensação do maior torneio do futebol africano. No sábado, porém, ela foi além: segurou o ímpeto da África do Sul, anfitriã da competição, conquistando um empate em 0 a 0 no jogo de abertura do torneio. Em conversa com o FIFA.com, os cabo-verdianos garantem que querem ainda mais.

Quando Cabo Verde garantiu classificação para disputar a Copa Africana, muitos entendiam que a seleção não teria condições de fazer muito mais do que cumprir tabela no Grupo A da competição, o qual conta também com as tradicionais seleções de Marrocos e Angola. Representando o menor país que já se classificou para a competição continental, os cabo-verdianos mantiveram um ar despretensioso durante a preparação para o torneio. No entanto, o dia de abertura viu uma seleção absolutamente determinada em campo, no empate em pleno caldeirão do Soccer City, em Johanesburgo.

"Queremos que a primeira vitória de Cabo Verde em uma Copa Africana de Nações seja aqui na África do Sul, na nossa primeira participação na história", conta o atacante Júlio Tavares. "Podemos ficar orgulhosos do que conseguimos conquistar na nossa estreia, mas agora, depois desse empate, nós queremos mais. Precisamos ser ambiciosos."

O atacante de 24 anos, que atua pelo Dijon, da segunda divisão francesa, entrou no segundo tempo, no lugar do meia Platini. Naquele momento do jogo, o técnico Lúcio Antunes colocou o selecionado no ataque para surpreender os donos da casa — o que já é um bom indicativo do pensamento confiante do técnico e da equipe. Tavares, que começou a carreira no pequeno Bourg-Peronnas, da França, já pensa no próximo jogo, contra o Marrocos. "Se jogarmos como contra a África do Sul, poderemos conseguir algo positivo", projeta. "Acho que podemos vencer."

Cabo Verde vai com ambições para o confronto diante dos campeões africanos de 1976. O Marrocos conta com vários jogadores conhecidos e experientes internacionalmente, mas a confiança faz parte do estado de espírito do grupo cabo-verdiano. "Não temos nenhum motivo para jogar a próxima partida sofrendo de um complexo de inferioridade", salienta o zagueiro Fernando Varela. "O Marrocos, como todas as seleções do norte da África, joga um bom futebol, mas nós vamos fazer o melhor que pudermos e jogar o nosso jogo", explica Varela, que atua no Vaslui, da Romênia, clube ao qual chegou no início da temporada, proveniente do Feirense, de Portugal.

Português de nascimento, Varela explicou, após a estreia, que a equipe de Cabo Verde não poderia deixar de pensar positivamente após o bom desempenho obtido no tenso jogo de abertura. "Estamos felizes com o empate diante dos anfitriões", revela o jogador de 25 anos. "Nunca é fácil atuar com torcida contra, mas fomos bem e mostramos que podemos realmente atuar como um time. Precisamos seguir neste caminho para causarmos uma surpresa no nosso grupo."

Um técnico feliz
Igualmente contente com o resultado está Antunes, que convocou para a Copa Africana de Nações um elenco formado basicamente por jogadores que atuam no futebol europeu. Atual 15º colocado no ranking africano e 70º no mundo (15 posições à frente da África do Sul), Cabo Verde controlou o jogo diante da anfitriã e foi recompensado com o empate. "Para mim, foi uma missão cumprida", diz o treinador, satisfeito. "A equipe foi excelente, fizemos o que tinha de ser feito e alcançamos os nossos objetivos. Agora, podemos nos concentrar no nosso próximo jogo, contra o Marrocos."

Cabo Verde, que nas eliminatórias obteve duas vitórias sobre Madagascar (4 a 0 fora e 3 a 1 em casa), criou as melhores chances de gol da partida, surpreendendo e causando medo nos torcedores que foram ao Soccer City. "Estou feliz, os jogadores estão felizes e a comissão técnica está feliz", afirma Antunes, mencionando o clima positivo da delegação. "Representamos bem o nosso país. Somos uma pequena nação de 500 mil habitantes, mas os deixamos orgulhosos hoje."

Como o segundo jogo do grupo, entre Marrocos e Angola, também acabou em 0 a 0, a tabela permanece em total equilíbrio antes da segunda rodada, que ocorrerá na quarta-feira, em Durban. Para Cabo Verde, significa dizer que um novo bom resultado contra o Marrocos poderá abrir as portas para algo que os ilhéus jamais poderiam sonhar alguns meses atrás: um lugar nas quartas de final da Copa Africana de Nações.