Novas esperanças para Cabo Verde
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Esta semana, Cabo Verde fará a sua tão sonhada estreia na Copa Africana de Nações. O país iniciará a sua primeira participação no torneio mais importante do continente logo na partida de abertura da CAN 2013 - e contra ninguém menos que a anfitriã África do Sul. O jogo será realizado no dia 19 de janeiro no Estádio Soccer City, em Johanesburgo. Vale destacar que a população cabo-verdiana é apenas seis vezes maior que a capacidade total da arena.

O técnico Lúcio Antunes não esconde a emoção de estar no mesmo palco onde Espanha e Holanda disputaram a final da Copa do Mundo da FIFA em 2010. "Será uma grande honra para o nosso pequeno país, mas vamos tentar assimilar isso tudo e saborear o momento", diz Antunes, que comandará a seleção mais modesta a jamais participar da competição continental — ainda mais modesta que a Guiné Equatorial, que se classificou à edição de 2012 automaticamente por ter sido uma das sedes do evento.

Contudo, a falta de tradição não é o único obstáculo que os "tubarões azuis", como são conhecidos os jogadores do selecionado cabo-verdiano, precisaram superar. O país é um arquipélago em forma de ferradura composto por 15 ilhas e ilhotas localizado a cerca de 570 km da costa ocidental da África, e a paisagem extremamente árida da região se contrapõe à vegetação abundante que o seu nome sugere. De fato, grama e água potável são recursos escassos em Cabo Verde, que não possui nenhum campo com gramado natural para a prática do futebol.

As condições de vida difíceis no arquipélago — onde exploradores portugueses estabeleceram um posto de abastecimento para os navios que lá passavam no século XV, e que mais tarde serviu como base para o comércio de escravos — também levaram à emigração em massa ao longo dos anos, a tal ponto que a maioria dos cabo-verdianos agora se encontra na Europa, nas Américas e na porção continental da África, e não nas ilhas em si.

Talentos perdidos
Entre os ilhéus que preferiram o êxodo há um número impressionante de jogadores de futebol, muitos dos quais acabaram optando por defender os países de adoção, e não a pátria de origem. Sem surpresa, Portugal foi quem mais se beneficiou. Na Copa do Mundo da FIFA 2010, o astro do Manchester United Nani foi um dos três integrantes do elenco português com raízes na pequena nação africana - embora ele não tenha participado do torneio por conta de lesão -, enquanto o meia Manuel Fernandes, do Besiktas, e o atacante Eliseu, do Málaga, ambos descendentes de cabo-verdianos, chegaram a fazer parte do grupo de 30 atletas que Portugal pré-convocou para a disputa do Mundial.

Outro jogador ilustre nascido em Cabo Verde é o volante Gelson Fernandes, que foi o autor do gol da Suíça na surpreendente vitória do país alpino sobre a Espanha na fase de grupos da Copa do Mundo da FIFA 2010. Já o pai do antigo ídolo da seleção sueca Henrik Larsson também é originário do arquipélago.

O vizinho Senegal também atraiu diversos jogadores que poderiam ter defendido Cabo Verde no cenário internacional. Entre eles estão Jacques Faty e Mickael Tavares, que atualmente jogam pela seleção senegalesa. Patrick Vieira, senegalês de nascimento que foi campeão do mundo com a França em 1998, também possui origens cabo-verdianas.

Embora nem todos esses talentos "perdidos" tenham nascido em Cabo Verde, continua chamando atenção o fato de tantos jogadores de ponta terem fortes conexões com o pequeno país rochoso do Oceano Atlântico. No entanto, alguns acreditam que o fenômeno pode ser explicado pela natureza isolada da ilha. "Os nossos meninos começam no futebol muito cedo, às vezes sob condições difíceis e adversas", explica o presidente da Federação Cabo-Verdiana de Futebol, Mário Semedo. "Lutar faz parte da personalidade dos cabo-verdianos, precisamente por causa dos obstáculos que eles precisam enfrentar na vida diária. Sob condições assim, qualidades como trabalho árduo e dedicação são essenciais, e a receita para o nosso sucesso no futebol é uma mistura desses ingredientes."

Talentos recuperados
No passado, esses ingredientes beneficiaram claramente as seleções de outros países, muito mais que a equipe nacional de Cabo Verde. Contudo, a classificação à Copa Africana de Nações demontra que as coisas começaram a mudar.

Um ponto de inflexão importante aconteceu no mês de abril de 2000, após a primeira participação de Cabo Verde nas eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA. Na tentativa de encontrarem uma maneira de fazer com que o país se saísse melhor na próxima ocasião, Semedo e os colegas de federação começaram a pensar nos milhares de cabo-verdianos que vivem no exterior e numa forma de atraí-los de volta para a seleção.

De repente, a fuga de talentos que era vista como uma influência puramente negativa passou a ser considerada como uma oportunidade, gerando um ambicioso programa de detecção de jogadores não só em destinos tradicionais como Portugal e Senegal, mas também em comunidades de expatriados na França, Luxemburgo, Suíça, Holanda e Estados Unidos.

Desde então, Cabo Verde passou a apostar fortemente em futebolistas que vivem no exterior, a tal ponto que nenhum representante dos clubes amadores da ilha foi convocado para um amistoso com Gana no último mês de novembro, com vistas à preparação para a CAN 2013.

Metade do plantel atual defende equipes da primeira divisão lusitana, e há jogadores que atuam em clubes de países variados como França, Romênia, Chipre e Angola. Alguns nasceram e se formaram em Cabo Verde antes de se transferirem para o exterior, como o centroavante Zé Luís, do Braga, e o atacante Ryan Mendes, do Lille. Outros fizeram o caminho inverso, estabelecendo-se como profissionais nos respectivos países de nascimento antes de serem convidados a jogar pela seleção cabo-verdiana.

"Acho que temos competência suficiente para atacar os nossos oponentes, e também dispomos de uma boa mistura de gerações", avalia o meia-atacante Odair Fortes, que disputa o Campeonato Francês com o Reims e está ansioso para retornar à seleção, depois que uma contusão o deixou de fora das duas partidas contra Camarões que selaram a classificação histórica de Cabo Verde à CAN 2013.

"O nosso capitão (Nando) tem 34 anos, mas o entusiasmo de alguém de 20", completa Fortes. "Além disso, temos uma série de jogadores em ascensão de clubes portugueses e do Leste Europeu e o bastante promissor Ryan Mendes. Quando éramos crianças, todo mundo em Cabo Verde torcia pelo Senegal, que era a 'seleção grande' mais próxima. Agora que nos classificamos para a Copa Africana de Nações e os senegaleses não, espero que a torcida deles apoie a gente!"

Investindo na prata da casa
A identificação de talentos no exterior desempenhou um papel importante na estratégia de desenvolvimento do futebol cabo-verdiano, mas não é o único segredo do sucesso recente do país. Afinal, a federação local também vem se empenhando na criação de oportunidades para os jogadores que seguem atuando no arquipélago.

Trabalhando em parceria com o Departamento de Federações Afiliadas e Desenvolvimento da FIFA, Cabo Verde foi um dos primeiros países africanos a adotar um programa de apoio à implementação de gramados artificiais que já construiu 15 campos no conjunto das ilhas. Além disso, foi também um dos pioneiros na realização de partidas de seleção em grama sintética. O Estádio da Várzea, na capital Praia, foi usado nas eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA 2010 imediatamente após a sua inauguração. "Esses campos foi o que inicialmente viabilizou o crescimento do futebol em Cabo Verde, tanto para as equipes nacionais quanto para o campeonato local", afirmou Semedo à FIFA World.

Cabo Verde também foi contemplado pelo Programa Goal, carro-chefe das iniciativas da FIFA em prol do desenvolvimento do esporte mais popular do globo. A aprovação de três projetos no intervalo de seis anos ajudou a financiar a sede da federação e um centro de treinamento em Praia, além da construção de um gramado artificial no local e da implementação de um centro técnico regional na ilha de São Vicente, o qual se encontra em obras atualmente.

Nos últimos cinco anos, a Federação Cabo-Verdiana de Futebol investiu mais de US$ 250 mil em recursos do Programa de Assistência Financeira da FIFA no desenvolvimento de competições nacionais para equipes seniores, enquanto cerca de US$ 160 mil foram usados na promoção das categorias de base. Seis cursos para árbitros também foram realizados no país desde 2007, no esforço de melhorar ainda mais o nível do futebol local.

"A forma como a federação está melhorando o padrão de gestão esportiva e combinando isso com as experiências que os jogadores que atuam na Europa trazem para nós só pode ajudar a desenvolver a próxima geração de jovens talentos", enfatiza o zagueiro Pedro Pelé, que já defendeu a seleção cabo-verdiana e registrou uma curta passagem pelo West Bromwich na Premier League inglesa. Hoje ele continua na Inglaterra, mas no Hayes & Yeading, da sexta divisão.

"Eu consigo entender por que alguns cabo-verdianos usaram as oportunidades que tiveram para representarem países maiores", acrescenta. "Mas é uma agradável surpresa ver os talentos que estão surgindo em Cabo Verde hoje em dia. Se continuarmos criando uma seleção forte, a nossa equipe será tão atraente para os jogadores quanto qualquer outra."

Os dirigentes permanecem realistas quanto aos desafios que ainda terão pela frente. A profissionalização do campeonato nacional é vista como uma meta de longo prazo que pode ajudar a elevar os padrões e a trazer mais fontes de renda para os clubes que perdem jogadores talentosos para equipes do exterior. Apesar das dificuldades permanentes, porém, eles estão confiantes de que a classificação de Cabo Verde à CAN 2013 pode servir de trampolim para novas conquistas.

"O futuro do futebol cabo-verdiano é muito promissor", insiste Semedo. "Estamos ampliando a formação de jovens jogadores nas várias categorias de idade e trabalhamos constantemente no desenvolvimento de outras áreas importantes, como a capacitação de treinadores, a arbitragem e a gestão esportiva. Acredito que esse investimento dará enormes frutos nos próximos anos."