Sonho realizado para Fortes e Cabo Verde
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Quando as 16 melhores seleções do continente chegarem à África do Sul para a 29ª Copa Africana de Nações em janeiro do ano que vem, o selecionado de Camarões será um dos principais ausentes. Tetracampeões continentais, os camaroneses tiveram a participação abortada pela surpreendente seleção de Cabo Verde, que os eliminou pelo saldo de gols no confronto decisivo das eliminatórias.

Um dos principais destaques do plantel cabo-verdiano é o meio-campista Odair Fortes. Apesar de ter ficado de fora dos dois confrontos contra Camarões por estar lesionado, Fortes deverá estar entre os titulares quando o país lusófono iniciar a sua primeira participação no certame continental. "Somos muito robustos na defesa e ágeis e oportunistas no ataque, e por isso somos bons no contra-ataque", afirma o jogador de 25 anos, meia do Stade de Reims, ao FIFA.com.

No entanto, Fortes acrescenta que nem sempre a equipe permite que o adversário dite o ritmo do jogo. Isso ficou claro no jogo em Iaundé contra Camarões, quando a seleção de Cabo Verde saiu derrotada, mas marcou o gol que definiu a classificação. Após vitória cabo-verdiana em Praia por 2 a 0, os donos da casa precisavam balançar as redes pelo menos duas vezes, mas foram surpreendidos com um gol logo no início do jogo, marcado pelo atacante Nhuck.

"Acho que também temos habilidades suficientes para pressionar o adversário", destaca Fortes. "Esta equipe tem uma boa mistura de gerações. O nosso capitão, Nando, tem 34 anos, mas mostra o mesmo entusiasmo de um rapaz de 20. Temos bons jogadores de clubes de Portugal e do Leste Europeu, e também Ryan Mendes (que defende o Lille no futebol francês), que é muito promissor."

Nas eliminatórias para a última edição da Copa Africana, os cabo-verdianos acabaram perdendo a vaga para Mali, também no saldo de gols, e não puderam comparecer ao torneio, disputado no início deste ano no Gabão e na Guiné Equatorial. Desde então, o ânimo só aumentou. "Começamos a acreditar em nós mesmos quando derrotamos Mali na nossa estreia nas eliminatórias para 2012", relembra Fortes. "Ganhamos muita confiança. Apesar de não termos nos classificado, sabíamos que o sonho não seria impossível para o torneio seguinte."

Para Fortes e os seus companheiros, a recompensa pelo trabalho veio ao final dos 90 minutos em Iaundé. "É um sonho que se realiza", compara. "Quando eu era criança e adolescente, todos em Cabo Verde costumavam torcer pelo Senegal, que está muito próximo. "Agora espero que todos no Senegal (que não se classificou) nos apoiem. Já nos classificamos, mas continuamos muito motivados. Estaremos na África do Sul para ganhar o torneio. Acredito que, com a exceção da Costa do Marfim, nenhuma seleção na África é mais forte do que a nossa no momento."

Garoto de Praia
Como muitos jogadores africanos, Fortes começou a jogar futebol na rua. "Participava de jogos de rua na capital Praia, mas também gostava muito de futsal, que é muito popular em Cabo Verde", revela. "O futsal me ajudou a aperfeiçoar a técnica e a velocidade. O meu jogador favorito sempre foi o grande Ronaldinho. Ele é o meu modelo desde criança."

A fim de melhorar as chances de jogar futebol profissional, Fortes viajou para a França com o tio em 2004, quando tinha 17 anos. Depois de jogar pelo Alfortville na quinta divisão do país, assinou contrato com o Stade de Reims, onde está há quatro anos. A estreia pela seleção veio em 2010, quando ele atuou em um amistoso contra Guiné-Bissau em Portugal. "Mesmo antes daquele momento, eu já estava em contato com a nova comissão técnica da seleção, comandada pelo técnico Lúcio Antunes. Eu disse que sim, é claro. Sempre fui convocado desde então, exceto, é claro, quando estive lesionado."

Antunes será o comandante da seleção que representará Cabo Verde pela primeira vez na Copa Africana de Nações. Se a equipe mantiver o alto nível dos dois confrontos contra Camarões, poderá aprontar mais surpresas. Para Fortes, o técnico de 46 anos é o principal responsável pelo bom momento de Cabo Verde, que apresenta um excelente entrosamento para uma seleção com jogadores que atuam em tantos países diferentes, muitos dos quais nem nasceram no arquipélago lusófono. "A razão do sucesso é o trabalho do treinador", observa o meio-campista. "Nós, jogadores, não nos conhecemos muito bem. Apesar disso, somos muito fortes como equipe. Precisarmos dar crédito ao técnico por esta realização."