Plácido Domingo: "O milagre chegou"
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Aos 71 anos, o espanhol Plácido Domingo mantém a mesma paixão pelo futebol que adquiriu na mais tenra idade. Torcedor fervoroso do Real Madrid, cujo hino interpretou no centenário do clube, o tenor esteve presente em dez das últimas 11 edições da Copa do Mundo da FIFA e desfruta do espetacular e áureo momento que vive a seleção espanhola de Vicente del Bosque.

Ainda comovido com a recente conquista da UEFA Euro, em Kiev, Domingo visitou a sede da FIFA em Zurique, reuniu-se com o presidente da entidade, Joseph S. Blatter, e compartilhou toda sua emoção com o FIFA.com. O espanhol falou das comparações entre o futebol e a ópera, dos pontos fortes do combinado que é a sensação do momento e de um sonho para o futuro: repetir a festa na final da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014.

FIFA.com: Voltamos a encontrá-lo em meio a uma comemoração espanhola. Qual é a sensação depois de outro título da Fúria?
Plácido Domingo: Estou muito feliz e orgulhoso, é claro. Esta é uma equipe maravilhosa e que vem mostrando isso em diversas oportunidades nos últimos anos.

Além do placar, que momento da final foi marcante para você?
A hora dos hinos foi muito emocionante. Quando o coro ucraniano entoou o hino italiano, todo mundo se somou ao canto nas arquibancadas e foi maravilhoso. É uma pena que o espanhol não tenha letra, pois as pessoas só podiam cantarolá-lo. O único que cantava uma letra era eu, uma que canto para mim, mas que agora não posso dizer qual é (risos).

Então, gostaria de incorporar uma letra ao hino?
Claro que sim. O esporte une a todos nós apesar das diferenças, como ficou claro com as 20 milhões de pessoas, metade do país, seguindo as partidas pela televisão. Temos pessoas muito inteligentes e extraordinariamente preparadas para trabalhar em uma letra. Não me refiro a criá-la eu, naturalmente. Talvez possamos criá-la para o Mundial no Brasil, ainda temos dois anos.

O público viveu esta coroação com uma paixão absoluta. É muito diferente em relação ao público que normalmente vai à ópera?
Certamente, todos se entregaram com uma paixão tremenda. A única diferença que eu diria é que, na ópera, se há uma tragédia, é igual para todo o público. No futebol, a tragédia só acontece para metade do estádio. A outra metade fica feliz (risos)!

Se tivesse de comparar esta seleção espanhola ao título de alguma ópera, qual seria?
(Pensa...) Eu a chamaria de "O milagre chegou". Serei sincero: à exceção de 1978, na Argentina, assisti a todos os Mundiais desde o México 1970. Sempre estive presente e sempre acreditei que passaria a vida toda sem que a Espanha fosse campeã. Por isso, quando comecei a ver esta equipe, me bateu uma esperança enorme.

Em que momento percebeu que esta fase áurea estava começando?
Esta equipe merecia ter vencido alguma coisa um tempo atrás, ainda que não tenha conseguido devido a vários altos e baixos. Mas, quando o torneio europeu na Áustria chegou, percebi um milagre surgindo. Esta é uma equipe que tem muita juventude e, por isso, as conquistas podem continuar aparecendo. Lembro-me de esperar pelo Mundial na África do Sul com muita ansiedade e confiança. Disse para mim mesmo que tínhamos chance, como ficou demonstrado depois. Agora conquistamos outra Euro, um recorde inédito.

Você teve contato com os jogadores recentemente?
Sim. Outro dia, conversava com o Iker Casillas e ele me dizia que o problema é que "vai chegar um dia que vamos perder". Eu respondi que é lógico, não se pode ganhar sempre, mas que eles têm a possibilidade de ficar para a história. A Espanha tem não só uma equipe forte, mas conta também com outros meninos que estão surgindo com bastante força: Jordi Alba e Juan Mata, por exemplo, que estarão no Torneio Olímpico. Temos muitos jogadores de menos de 20 anos com um grande potencial. Pode-se ganhar ou perder, isso não se sabe, mas as derrotas também não dizem muito. Na África do Sul, começamos a Copa do Mundo com uma ducha de água fria contra a Suíça e sabemos como terminou a história.

Para nos despedirmos, gostaríamos de saber: para um torcedor do futebol como você, qual a importância de ter conseguido tantos títulos diante de adversários tão qualificados?
Enorme! Vencemos a Alemanha no torneio europeu disputado na Áustria, a Holanda em Johanesburgo, e a Itália em Kiev. A única coisa que falta agora é vencer o Brasil no Brasil. Esse seria o grande sonho de todos os espanhóis!