"Anjo" Aboutrika levanta voo
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Chamar Mohamed Aboutrika de ídolo do Al Ahly é minimizá-lo. A torcida do clube do Cairo se refere a ele como um "anjo" e um "ícone". Até mesmo os jornalistas o tratam como um "homem de paz". Falam de seu caráter ético e sua humildade, e de como uma vez ele recusou um alto salário por considerá-lo injusto com o zagueiro com quem dividia o vestiário.

Há certo fervor na devoção dedicada a este meia-atacante natural de Gizé, que vem dando troféus ao clube mais vitorioso do Egito há quase uma década. Por isso, deve ter sido um choque para a torcida quando Aboutrika, cinco vezes melhor jogador do ano em seu país, não foi relacionado entre os titulares para o jogo de estreia da equipe na Copa do Mundo de Clubes da FIFA contra o Sanfrecce Hiroshima. "Sei qual é meu papel e respeito a estratégia do técnico", disse, cabeça oculta no capuz do moletom, voz baixa e tom solene, fazendo o melhor que podia para esquivar os inúmeros jornalistas egípcios presentes. "O time continua sendo um só comece eu no banco ou em campo. Sou apenas uma parte dele. Respeitamos as decisões de nosso treinador."

Quando Hossam Ghaly, talentoso meio-campista e capitão do Al Ahly, lesionou o joelho na metade do primeiro tempo, o técnico Hossam El Badry sabia quais cartas tinha à disposição no banco. "Aboutrika é um grande jogador", disse o treinador, que nem sempre teve um relacionamento tranquilo com o craque de 34 anos. "Ele está envelhecendo, mas também ficando mais inteligente."

Herói hesitante
Com o placar travado em 1 a 1 e com o Sanfrecce ganhando espaço, a tranquilidade de Aboutrika na distribuição do jogo e suas tentativas de incursão no ataque fizeram a diferença. Assim, havia uma sensação de inevitabilidade no ar quando ele marcou o gol da vitória. Bem posicionado na entrada da grande área, o meia ganhou de seu marcador no jogo de corpo e disparou em direção ao gol, batendo cruzado sobre o goleiro, que decidiu não sair. "Este gol só foi importante porque ajudou o Al Ahly a vencer o jogo", disse o craque ao FIFA.com. "Todos jogamos unidos e triunfamos unidos. O Mohamed Aboutrika não importa", acrescentou, quase se desculpando por seu feito.

"Também desejo o melhor para o grande Hossam Ghaly", disse, lembrando-se do capitão da equipe, cuja rotura nos ligamentos do joelho o deixará fora dos gramados por até seis meses.

Humildade à parte, o gol não só foi importante para levar o Al Ahly à semifinal, onde enfrentará o Corinthians. Foi também o quarto gol de Aboutrika em Mundiais de Clubes, o que o iguala aos maiores artilheiros da competição – Lionel Messi e o brasileiro Denílson. "Os prêmios individuais não importam", disse, encarnando o papel de ídolo abnegado. "O importante é que o time seja campeão, ganhe troféus. Estou feliz de igualar a marca de Messi, mas sou vitorioso quando a equipe é vitoriosa."

Alegria da torcida
Quando a conversa se volta para a torcida do Al Ahly, Aboutrika baixa ainda mais o tom da voz. Ele marcou seu gol justo em frente a uma faixa gigante exibida por um ruidoso grupo de fãs, que dizia "72. Nunca esqueçam". Era um duro lembrete do número de pessoas que morreram em fevereiro deste ano na tragédia de Porto Said, após um jogo entre o próprio Ahly e o Al Masry. "Nossa meta, a mais importante delas, é dar alegria ao povo egípcio, principalmente às famílias daqueles que morreram", disse Aboutrika, cabeça baixa. "Queremos levar-lhes um pouco de felicidade, qualquer uma. Um sorriso que seja."

Aboutrika chegou a abandonar o futebol profissional após a trágica morte daqueles torcedores na cidade portuária. Mais tarde, mudou de ideia, mas sua percepção sobre o futebol – e o lugar que ele ocupa na escala de importância em sua vida – se transformou. "O resultado, ganhar ou perder, nem sempre é o objetivo principal", disse o camisa 22, que se aproxima dos cem jogos pela seleção nacional.

Mas, apesar de fazer seu melhor para acompanhar as idealizadas expectativas que a torcida tem em relação a ele, Aboutrika continua sendo um jogador – e todo jogador quer ganhar partidas. Agora vem o teste contra o Timão, um dos favoritos da competição. "Não temos a obrigação de vencer o Corinthians, que é um dos grandes do futebol mundial, mas temos de fazer nosso melhor", disse, subitamente exibindo determinação e abandonando o olhar de súplica e humildade.

"É uma grande equipe, mas tomaremos providências e daremos nosso melhor para vencê-la", concluiu. Após um aperto de mãos, Aboutrika saiu para encarar uma maré de jornalistas egípcios empunhando blocos de nota e câmeras, ansiosos por uma palavra deste homem humilde.