A primeira decisão entre Corinthians e Boca

Campeão brasileiro, o Corinthians viaja para Buenos Aires para enfrentar o Boca Juniors pelos mata-matas da Copa Libertadores, num confronto cercado por muita expectativa. Oras, é um jogo que envolve duas das maiores e mais fervorosas torcidas sul-americanas. Está todo mundo ansioso para ver o que acontece, não?

Nem todos. Não se começarmos a tratar agora o assunto no passado e pensarmos que estamos em 1991, quando os dois popularíssimos clubes se enfrentaram pela primeira vez no torneio continental, pelas oitavas de final, 21 anos antes de se encontrarem na decisão inédita que tem início nesta quarta-feira.

“Ninguém no Corinthians nem pensava muito sobre a Libertadores. A gente não tinha uma estrutura voltada para isso. A imprensa valorizava muito mais do que a diretoria, do que o clube”, afirma ao FIFA.com o ex-meia Neto, camisa 10 daquele time, um dos maiores ídolos da história alvinegra e hoje apresentador, comentarista e uma personalidade multimídia do futebol brasileiro. “Para falar a verdade, a gente não estava preparado para um confronto daqueles.”

Outros tempos
Em 1990, 80 anos depois de sua fundação, o Corinthians conquistou seu primeiro Brasileirão, liderado pelo talento explosivo de Neto, exímio nas bolas paradas, de forte chegada na área e também uma das personalidades mais marcantes de sua época. Com o título, o clube voltava ao torneio internacional pela primeira vez desde 1977 - o que explica um pouco esse distanciamento na abordagem da Libertadores por parte da clube, que combinava a euforia pela realização de um sonho no ano anterior com a inexperiência nessa competição. “Para a minha geração, que ganhou o título mais importante do clube até então, a gente acabava nem pensando muito nisso. Quando se lembra daquela época, nos lembramos do título. Mas foi uma experiência bem legal para todos”, diz Neto. Uma boa experiência e com forte carga emocional.

Suspenso ao final da fase de grupos, em que o Corinthians se classificou ao lado do Flamengo, superando o Nacional e o Bella Vista, do Uruguai, Neto acabou não participando da ida, em La Bombonera. Já o ex-atacante Paulo Sérgio, que se sagraria campeão da Copa do Mundo da FIFA EUA 1994 e multicampeão pelo Bayern de Munique, estava lá, naquele caldeirão ao qual os alvinegros foram apresentados.

“Saindo do ônibus, na chegada ao estádio, você já sente a pressão. Nos corredores é a mesma coisa, até mesmo com funcionários que trabalham no estádio”, relembra. “Claro que o futebol de hoje é bem diferente, em cada esquina tem uma câmera. Antes, muitas coisas podiam acontecer sem serem notadas por todos. Mas o jogador tem de se manter bem frio, para que possa desempenhar seu trabalho. Pode até ser bom para o jogador, desde que a pressão não o afete.”

No fim, a equipe portenha venceu por 3 a 1, com dois gols de um jovem centroavante que atendia por Gabriel Batistuta. “Fomos motivados, mas infelizmente tivemos algumas falhas individuais, e uma das coisas que vejo contra a equipe do Boca é que você não pode falhar.”

Na volta, a torcida fiel ainda tinha esperança. Numa noite de chuva, os corintianos lotaram o Morumbi, tentando influenciar numa reviravolta no duelo. Mas qualquer reação se viu ainda mais complicada depois que Alfredo Graciani roubou a bola do zagueiro Guinei na ponta-esquerda e abriu o placar num toque de cobertura sobre Ronaldo. “Era difícil demais enfrentar o Boca, mesmo com tudo aquilo que o Corinthians tinha ao seu lado”, afirma Neto.

O Timão lutou, mas não conseguiu o resultado necessário, empatando por 1 a 1, com gol do próprio Paulo Sérgio. “O torcedor estava do nosso lado. Nunca havia jogado com o Morumbi cheio daquele jeito, só com corintianos. Quando tentamos reagir, era tarde. Mas nossa equipe foi bem aguerrida. Sofri uma lesão, e já havíamos feito as substituições. Nos minutos finais, então, continuei no esforço”, conta o atacante, que, em 2001, ao menos teve sua revanche, pelo Bayern, derrotando o Boca pela final da Copa Intercontinental.

Lição e confiança
Apesar da distância, Paulo Sérgio acredita que aquele primeiro embate com os xeneizes pode passar algo importante para o atual elenco corintiano. “A gente precisava ter feito o resultado na Bombonera. Isso serve de lição hoje. Tem de fazer uma boa partida lá, sem muitos erros. O Boca espera isso da equipe adversária - que jogue o jogo deles - pois sabe jogar muito bem fora de sua casa.”

Se o Corinthians enfrentou o Boca naquela época até com uma certa de inocência, hoje o contexto é totalmente diferente para os comandados de Tite. Depois de algumas campanhas que pareciam promissoras terem terminado de modo frustrante nos últimos anos, na avaliação dos dois ex-jogadores, a equipe chega com tudo a sua primeira decisão de Libertadores: madura e testada.

“Até o jogo contra o Santos, eu tinha uns pontos de interrogação”, diz Paulo Sérgio. “Mas vi que o Corinthians se posicionou bem nas duas partidas, fazendo seu jogo, marcando muito bem, errando o menos possível. A postura foi de uma equipe forte, que sabe o que quer, que está lutando para ser campeão da Libertadores.”

“Acho que o Corinthians está preparado. Tem um planejamento sério, coisa que não havia antes”, avalia Neto. “Se vai ganhar agora, não sei. Se não ganhar, tudo bem, já está na final. Mas, cedo ou tarde, o time vai ganhar.”