Embora a versatilidade seja um diferencial valioso no futebol, poucos jogadores costumam brilhar jogando em mais de uma posição. A cidade galesa de Swansea, no entanto, é a terra de uma notável exceção à regra.

Para ilustrar melhor a história, Nat Lofthouse, grande ídolo da seleção inglesa na década de 1950, quando questionado sobre o melhor zagueiro que havia enfrentado, respondeu, sem hesitar: John Charles. Naquela mesma semana, o capitão do English Team, Billy Wright, foi perguntado sobre o centroavante que mais temia enfrentar. E a resposta foi idêntica à de Lofthouse.

Defendendo ou atacando, Charles — tanto em altura como em qualidade técnica — foi um verdadeiro gigante dos tempos do pós-guerra. Outro grande craque da história do futebol inglês, Bobby Robson, era um admirador seu de longa data e o incluía na lista dos melhores de todos os tempos. "No rol dos maiores do mundo, ele provavelmente estaria junto com os melhores: Pelé, Maradona, Cruyff, Di Stefano e George Best", afirmou o ex-jogador e técnico inglês, falecido em 2009. "Mas quantos desses eram jogadores de categoria internacional em duas posições? A resposta é fácil: nenhum."

Não foi apenas a versatilidade de Charles que fez dele um ícone do futebol europeu. O galês ganhou uma reputação ainda maior por fazer sucesso atuando fora do seu país de origem, algo incomum na época. Vestindo a camisa da Juventus entre 1957 e 1962, ele foi um dos jogadores mais celebrados da história do futebol italiano. A importância dele para a Juve ficou evidente em 1997, quando, por ocasião das comemorações do centenário do clube, os torcedores o escolheram em detrimento de Michel Platini como o melhor jogador estrangeiro da história da Vecchia Signora.

O reconhecimento foi muito além de Turim e chegou também ao resto da Itália, fazendo dele o primeiro jogador estrangeiro — antes de Platini, Maradona e Van Basten — a obter lugar no Hall da Fama do futebol italiano.

Sensação desde adolescente
Os feitos alcançados por John Charles fizeram dele um ídolo histórico da Juventus. Em 1957, a equipe de Turim penava perto da zona de rebaixamento. Naquele mesmo ano, em agosto, o clube encontraria no Leeds United um jogador que, enfim, poderia responder às suas súplicas. A Juventus havia recentemente desembolsado um recorde de 91 mil libras por Omar Sívori e precisava de alguém com força, velocidade e crueldade diante dos goleiros para complementar o estilo criativo e habilidoso do argentino.

Charles tinha 25 anos quando foi contratado pela Juventus, mas já apresentava no currículo um trabalho excepcional no Leeds, levando o time da segunda divisão de volta à elite inglesa. Ele estreou como profissional com apenas 17 anos, conta o clube escocês Queen of the South. A tarefa era árdua: marcar o atacante Billy Houliston, que dez dias antes havia comandado a Escócia em uma vitória por 3 a 1 sobre a Inglaterra. Mas Houliston mal viu a cor da bola durante o jogo, que acabou empatado em 0 a 0. Impressionado com a atuação de Charles, o escocês imediatamente elogiou o jovem marcador. "É o melhor zagueiro que já enfrentei", disse.

Fazer jus ao elogio nunca foi problema para Charles. Mesmo em início de carreira, ele já tinha um porte físico imenso: 1,88 metro de altura e quase 90 kg de peso. O único dilema do Leeds era decidir onde aproveitá-lo melhor. As variadas qualidades tornaram-no um jogador capaz de atuar com naturalidade em diversas posições. Embora tenha marcado 42 gols na temporada 1953/54 (recorde nunca batido por nenhum jogador do Leeds até os dias de hoje), ele chegou a ser escalado aberto pela direita na defesa e posicionado pela esquerda no meio-campo, mas atuou na maioria das vezes como zagueiro de área.

Independentemente da posição, o brilho era garantido. Danny Blanchflower, grande meio-campista do Tottenham daqueles tempos, não foi o único jogador que se sentiu inferior perto de Charles. "Os meus pés não respondem ao meu pensamento como os de John Charles fazem", disse. "É por isso que nunca serei um jogador tão bom quanto ele."

Uma transferência recorde
Histórias a respeito do raro talento de Charles se espalharam pela Europa. Os relatos feitos pelos observadores da Juventus justificavam a oferta de 65 mil libras — quase o dobro do recorde inglês na época. Embora no começo os italianos esperassem um período de adaptação ao novo país, o galês já surgiu decidindo os três primeiros jogos, marcando gols importantes nas vitórias sobre o Verona (3 a 2), a Udinese (1 a 0) e o Genoa (3 a 2). A Juve conquistaria o título, e Charles, na primeira temporada na Itália, terminaria o ano escolhido o melhor jogador do país e o artilheiro do campeonato, com 28 gols.

Na temporada seguinte, ele foi o terceiro colocado na disputa do Ballon d'Or da revista France Football, que elegia o melhor jogador europeu da temporada. A carreira na Juventus lhe deu três títulos italianos e duas Copas da Itália, isso sem falar nos 93 gols que marcou em 155 partidas. Assim como nos tempos de Leeds, os números escondem o fato de que, na Juventus, Charles tinha o posicionamento muitas vezes alternado entre os setores ofensivo e defensivo. Inúmeras vezes o galês foi recuado para ajudar a garantir um placar que ele próprio havia construído como atacante, numa mesma partida.

Apesar da fantástica contribuição que ele dava à Juve dentro das quatro linhas, era a conduta de Charles fora de campo que causava maior admiração. "Eu diria que ele era de outro mundo, por causa das qualidades como ser humano", recorda o ex-colega de time Giampiero Boniperti. "O John foi uma das pessoas mais leais e honestas que já conheci, um homem muito especial. Ele conseguia manter o time inteiro unido. Qualquer discussão se encerrava quando ele aparecia no campo ou no vestiário."
 
De fato, além da qualidade técnica, Charles se tornou famoso também por conta da irreparável conduta desportiva, o que explica o apelido de "O Bom Gigante". As recusas em reagir a provocações ou usar a força física para intimidar os adversários resultaram em uma passagem de cinco anos pelo futebol italiano sem nenhum cartão amarelo. O compromisso com o fair play tornou-se uma marca registrada e motivou uma famosa frase do antigo árbitro inglês Clive Thomas. "Se tivéssemos 22 jogadores com o caráter do John, não haveria necessidade de árbitros no futebol, mas apenas cronometristas", declarou.

Brilho na Copa do Mundo
Foi nos tempos de Juventus que Charles alcançou o auge da carreira com a seleção, fazendo parte, na Suécia 1958, da primeira e até hoje única participação de Gales na Copa do Mundo da FIFA. Os galeses fizeram o máximo que puderam, passando invictos pela primeira fase e forçando um jogo extra com a Hungria, contra a qual Charles já havia marcado um gol no início do torneio. O País de Gales venceu o play-off por 2 a 1 e se classificou para jogar as quartas de final contra o Brasil, mas Charles se lesionou e só pode acompanhar da arquibancada o gol de Pelé, que deu a vitória aos brasileiros. "Se o John tivesse jogado, poderíamos ter vencido o jogo", lamentou Jimmy Murphy, técnico da seleção galesa na ocasião.

Charles retornou ao Leeds em 1962 por uma quantia recorde para o clube que o revelou: 53 mil libras. Apesar da enorme festa — e de uma nova transferência envolvendo muito dinheiro para a Roma no ano seguinte — já era aparente que os melhores tempos estavam ficando para trás. No entanto, muitos ainda o consideram o melhor jogador que já atuou em Elland Road, a casa do Leeds, a qual é ornada por um busto que leva o seu nome.

"John Charles era uma equipe em si mesmo", disse uma vez Jack Charlton, outro grande ídolo histórico do Leeds. "As pessoas seguidamente me perguntam quem foi o melhor jogador que já vi jogar. Respondo que provavelmente foi Eusébio, Di Stefano, Cruyff, Pelé ou o nosso Bobby Charlton. Mas o jogador mais eficiente que já vi, o que mais fazia a diferença no desempenho de todo o time, sem dúvida foi John Charles."

Embora o elogio de Jack Charlton seja brilhante, foi ainda mais comovente a homenagem que a Juventus prestou ao eterno ídolo quando ele morreu, em 2004. "Choramos por um grande campeão e um grande homem", disse o ex-jogador Roberto Bettega, hoje vice-presidente do clube alvinegro. "O John foi uma pessoa que interpretou o espírito da Juventus da melhor maneira possível, e também representou o esporte da melhor e mais pura maneira possível."