"Zischek balançou as redes duas vezes, mas o gol de Sindelar foi uma verdadeira obra de arte, um feito que ninguém conseguiria alcançar contra um adversário como os ingleses. Nem antes nem depois dele. Sindelar pegou a bola no meio do campo e disparou com a sua incomparável elegância, driblando tudo o que aparecia pela frente, e concluiu para o fundo do gol." Foi assim que o árbitro belga John Langenus descreveu em sua súmula um maravilhoso gol do atacante austríaco Matthias Sindelar em uma derrota por 4 a 3 contra a Inglaterra em Londres no ano de 1932.
Foram necessários 54 anos até que um certo Diego Maradona marcasse um gol bem parecido contra o English Team na Copa do Mundo da FIFA México 1986. Embora não haja imagens da obra prima, a imparcialidade do juiz que testemunhou o feito não deixa dúvidas de que o lance realmente deve ter sido espetacular. Possivelmente, foi o gol mais bonito da carreira do atacante, que havia nascido cerca de 29 anos antes na cidade de Kozlau (antigo Império Austro-Húngaro, atualmente República Tcheca).
De Kozlau para Viena
A família do jogador se mudou quando ele ainda era bastante jovem da sua pequena cidade natal para a capital do império, a sofisticada Viena. Foi lá que o jovem Matthias cresceu. Como os Sindelar não eram muito abastados, o futuro craque e os seus amigos não jogavam com bolas de couro, e sim com uma bola feita de sobras de diversos materiais.
Em pouco tempo, Sindelar começou a mostrar talento para o esporte, desfilando os seus dribles no asfalto das ruas vienenses. Aos 14 anos, ele começou a trabalhar como aprendiz de serralheiro e, ao mesmo tempo, procurava uma equipe onde pudesse jogar. No entanto, o seu objetivo só foi alcançado dois anos mais tarde.
Aos 16 anos, Sindelar foi descoberto por um olheiro que o levou para jogar no ASV Hertha, onde ele teve as suas primeiras experiências em uma equipe organizada. Após mostrar um alto rendimento nas categorias de base, o "Homem de Papel", como era conhecido por adotar um estilo de jogo sem usar o corpo, fez a sua estreia no elenco principal quando tinha 18 anos.
Logo nas primeiras partidas no Campeonato Austríaco, o atacante anotou os seus primeiros gols e se firmou como titular na temporada seguinte. Em 1923, Sindelar viveu um revés considerável e chegou a correr o risco de não poder mais jogar futebol devido a uma contusão no joelho fora dos gramados. Graças a uma cirurgia realizada pelo famoso médico Hanz Spitzy, o artilheiro conseguiu se recuperar e dar continuidade à sua carreira.
No entanto, como temia pela sua integridade física, Sindelar aperfeiçoou ainda mais um estilo que prescindia do contato físico e que cada vez mais era a sua marca registrada. Um ano depois da lesão, o atacante deixou o Hertha, que estava tendo sérias dificuldades financeiras depois de ter sido rebaixado e precisou vender alguns jogadores.
Clube novo e os primeiros títulos
Sindelar decidiu permanecer em Viena e assinou contrato com o Wiener Amateure, que havia acabado de ser campeão nacional. Após algumas dificuldades iniciais, o jovem craque se estabeleceu na equipe e passou a ser um dos preferidos da torcida.
Em 1925, o atacante conquistou o seu primeiro triunfo futebolístico, a Copa da Áustria, além de ter ficado com o vice no Campeonato Austríaco. Na temporada seguinte, Sindelar e os colegas de equipe conquistaram ambos os títulos. O atleta se desenvolveu muito no Áustria Viena, como o clube passou a se chamar em 1926, mas as conquistas não estavam sendo suficientes.
Além das Copas da Áustria de 1927 e 1930, o clube não ganhou mais nada com o novo nome. Muito pelo contrário: Sindelar e os companheiros jogavam com o objetivo de não serem rebaixados no campeonato nacional. Só mesmo o craque do time convencia em campo, tornando-se uma das personalidades mais admiradas de Viena.
Dessa forma, não foi nenhuma surpresa quando ele estreou pela seleção austríaca em 1926. Sindelar tinha 23 anos e fez o gol da vitória por 2 a 1 sobre a antiga Tchecoslováquia. Nos jogos seguintes, contra Suíça e Suécia, o atacante voltou a deixar a sua marca.
No entanto, por ter um estilo de jogo muito técnico, Sindelar se viu afastado da seleção por algum tempo. Após uma derrota contra um selecionado do sul da Alemanha, o jogador ficou 14 jogos sem ser convocado pelo técnico Hugo Meisl, que por algum motivo não gostava da habilidade do atacante. Três anos depois, em 1931, o artilheiro voltou a ser chamado, principalmente devido à pressão dos torcedores e da imprensa, que exigiam o seu retorno.
O "Time Maravilha"
Logo no primeiro jogo após o retorno de Sindelar, os austríacos conseguiram uma surpreendente goleada por 5 a 0 sobre a Escócia em uma partida que marcou a primeira derrota dos escoceses contra seleções de fora do Reino Unido. Foi o início de uma sequência de vitórias sem precedentes e o nascimento do "Time Maravilha" austríaco.
Depois disso, a seleção austríaca conseguiu boas vitórias contra o Império Alemão, a Suíça, a França e a Bélgica. Mas o auge de Sindelar e dos seus colegas de selecionado aconteceu no dia 24 de abril de 1932 com a goleada de 8 a 2 sobre a arquirrival Hungria. O craque de 29 anos marcou três gols e deu o passe para os outros cinco.
No mesmo ano, a Áustria venceu a Copa Europeia de Seleções, um torneio precursor da Eurocopa. O "Time Maravilha" sofreu apenas uma derrota naquela época, mas ela teve um certo sabor de vitória para o jogador de 1,75 metro de altura e 76 quilos que, àquela altura, já era o capitão do selecionado.
A derrota aconteceu em dezembro de 1932, justamente quando os austríacos perderam por 4 a 3 da Inglaterra em Londres. Aquela foi a primeira vez em que os ingleses levaram mais de um gol dentro da sua ilha. Além disso, foi naquele dia que Sindelar anotou o maravilhoso gol descrito acima, justificando o apelido do "Time Maravilha".
Sucesso profissional
Sindelar também repetiu o excelente desempenho que mostrou na seleção nos clubes por onde passou. Depois da era do "Time Maravilha", o goleador conquistou vários títulos pelo Áustria Viena.
Em 1933, Sindelar conduziu praticamente sozinho o seu clube ao título da Copa da Europa Central, precursora da Liga dos Campeões da UEFA. Na final contra a Internazionale de Milão, que contava com ninguém menos do que Giuseppe Meazza em campo, o atacante fez os dois gols na vitória por 2 a 1 no jogo de ida e também balançou as redes no jogo de volta, vencido pela sua equipe por 1 a 0.
A Copa do Mundo da FIFA 1934 foi uma decepção. A seleção austríaca entrou como favorita, mas caiu na semifinal diante da anfitriã Itália, que acabou se sagrando campeã mundial, e ficou apenas com a quarta colocação. Mas pelo seu clube as alegrias ainda não haviam chegado ao fim para Sindelar. Depois de vencer a Copa da Áustria em 1935 e 1936, o Áustria Viena conquistou mais uma Copa da Europa Central em 1936. Para chegar ao seu segundo título continental em quatro anos, a equipe venceu o Sparta de Praga na final.
Fim prematuro
A invasão da Áustria pelo exército alemão em 1938 significou o fim temporário do futebol austríaco. Apenas dois meses depois, todos os contratos de jogadores profissionais foram dissolvidos e os clubes judeus, entre eles o Áustria Viena, foram proibidos.
Nessa época, Sindelar comprou uma cafeteria para ter uma segunda renda e passou a se recusar a defender a seleção nacional do Império Alemão, embora tenha sido várias vezes convocado pelo técnico Sepp Herberger.
No dia 26 de dezembro de 1938, ele disputou a sua última partida pelo Áustria Viena, que havia sido obrigado a mudar de nome para SC Ostmark Viena. O "Homem de Papel" marcou o último gol da sua brilhante carreira no empate em 2 a 2 contra o Hertha Berlim. No dia 23 de janeiro de 1939, Matthias Sindelar faleceu no seu apartamento sob circunstâncias até hoje nebulosas.
No entanto, mesmo depois da sua morte, o atacante continuou gozando de alta estima entre os seus compatriotas. Cerca de 15 mil pessoas acompanharam o caixão de Sindelar na sua última viagem para o Cemitério Central de Viena, onde até hoje é realizada anualmente no dia da sua morte uma cerimônia fúnebre.
