Em meados da década de 1930, György Sárosi integrou as seleções europeias escolhidas por importantes publicações como La Gazzetta dello SportKicker e L’Auto. Se por um lado não havia nada surpreendente com tamanha unanimidade, por outro destacava-se uma diferença marcante: cada uma delas escolheu o jogador do Ferencváros e da seleção húngara para uma posição diferente. Uma o colocou como zagueiro, outra o elegeu como meio-campista e a terceira o escalou como atacante. Não poderia haver maior prova de que Sárosi não apenas atuava em funções diferentes, como também brilhava em todas elas.

"Em um jogo ele estaria na zaga e no outro já jogaria no meio ou no ataque, o que já era impressionante por si só", afirmou há muitos anos o inesquecível Silvio Piola, que enfrentou Sárosi quando defendia a Lazio. "Mas o mais impressionante é que ele era provavelmente o melhor jogador de defesa, o melhor meio-campista e o melhor atacante do mundo", complementou o italiano, falecido em 1996.

"Eu soltava um suspiro de alívio quando percebia que ele não ia me marcar. Mas daí me dava conta de que precisaria fazer uns dois ou três gols para termos chances de vitória, pois, quando o Sárosi jogava no ataque, era quase certo que o time dele balançaria a rede várias vezes. E às vezes nem isso era suficiente. Em 1937, na final da Copa Mitropa, eu marquei quatro gols, mas o Sárosi fez seis e nós perdemos!” 

Aquela conquista do antigo torneio entre times da Europa Central foi o ápice de uma carreira clubística dedicada exclusivamente ao Ferencváros. Sárosi também ajudou a equipe a ganhar cinco Campeonatos Húngaros e cinco Copas da Hungria. Além disso, foi capitão da seleção húngara vice-campeã mundial em 1938.

No entanto, se dependesse das intenções de Sárosi, a carreira dele teria sido nos tribunais e não nos campos de futebol. Nascido em 1912, em Budapeste, György Stefanicsics (mais tarde, mudou o sobrenome para que parecesse mais húngaro) começou a jogar nas categorias de base do  Ferencváros aos 15 anos de idade. Dois anos depois, quando o tradicional time da capital lhe ofereceu um contrato profissional, o jovem tinha outros planos.

"Eu queria ser advogado”, relembrou Sárosi. "Eu enxergava o futebol como diversão, não como carreira profissional. Mas o meu pai, que trabalhava duro como alfaiate, me convenceu de que muita gente estava perdendo o emprego devido à depressão econômica e que o meu talento me levaria a uma posição de destaque no mundo do futebol."

Assim, aos 18 anos, Sárosi estreou na zaga central do Ferencváros no fim da temporada 1930/31, desempenhando um papel fundamental na histórica campanha do ano seguinte. De fato, o Ferencváros Torna Club foi o primeiro e ainda hoje é o único time a ter vencido todos os jogos de uma edição do Campeonato Húngaro.

"Ele era apenas um garoto, mas no gramado parecia um homem feito jogando contra crianças no parque", comparou Zoltan Blum, treinador dele na década de 1930. "Era algo fácil demais para ele. Ele era grande, forte mesmo, rápido, nunca perdia uma disputa de cabeça. Impossível de ser marcado. Acima de tudo, ele jogava com extrema confiança. Mesmo tão novo, jogava com a confiança de um capitão. Partia da defesa com a bola dominada, driblando os adversários e fazendo lançamentos."

Devido à classe com a bola, Sárosi gradativamente foi sendo escalado em posições mais adiantadas na formação do Ferencváros — primeiro como meia-atacante e depois como atacante. Foi no meio-campo que ele atuou na inesquecível goleada de 11 a 1 sobre o Ujpest, campeão húngaro daquela temporada, na final da Copa da Hungria de 1933, balançando as redes em três oportunidades e dando quatro assistências.

Mas foi como atacante que Sárosi atuou mais vezes nos 17 anos com o uniforme alviverde. Jogando na frente, teve média de pelo menos um gol por jogo durante oito temporadas consecutivas a partir de 1935/36 e foi artilheiro do campeonato em duas ocasiões. Ele ainda é o maior goleador da história da Copa Mitropa, antigo torneio de clubes oriundos de nações como Áustria, Tchecoslováquia, Hungria e Itália — na época grandes potências do futebol europeu.

"Gyurka", como ele era chamado, ajudou o Ferencváros a conquistar o vice em 1935, 38, 39 e 40, sendo decisivo também em 1937, quando o time levantou a taça. Fora de casa, na partida de ida da semifinal contra o Áustria Viena, Sárosi conseguiu conter o famoso atacante Matthias Sindelar, mas não impediu a derrota do desfalcado Ferencváros por 4 a 1. No jogo de volta, em Budapeste, ele apareceu mais no ataque e eletrizou a torcida com dois gols na vitória por 6 a 1, eliminando assim o time que havia vencido a competição no ano anterior. O adversário na final foi a Lazio. O Ferencváros ganhou por 4 a 2 em casa e por 5 a 4 fora, com Sárosi fazendo três gols em cada partida.

Sárosi estreou na seleção húngara aos 18 anos, na derrota de 3 a 2 para a Iugoslávia, em maio de 1931. Logo na segunda partida, o adolescente anulou o tcheco Antonín Puč na vitória húngara por 3 a 0. Em razão das impecáveis atuações na zaga, só no 15º jogo Sárosi foi escalado no ataque da Hungria. De modo previsível, ele fez um gol naquele dia contra a Suécia, como também na derrota de 2 a 1 para a Áustria, resultado que sepultou as chances húngaras ainda nas quartas de final da Copa do Mundo da FIFA 1934.

Quatro anos depois, Sárosi balançou as redes quatro vezes em três jogos na trajetória húngara rumo à final contra a Itália, que buscava o bicampeonato. Apesar de ter marcado um gol e dado passe a outro, naquela ocasião ele foi superado por Piola, cujos dois gols ajudaram a Azzurra a triunfar por 4 a 2. Os prêmios de consolação de Sárosi foram a Bola de Bronze e a Chuteira de Bronze, as quais ele recebeu por ser o terceiro melhor jogador e o terceiro na artilharia da competição. 

A sorte não esteve ao lado dele naquele dia parisiense, mas Sárosi já tinha realizado uma façanha invejável pela seleção húngara no ano anterior. Em jogo contra a Tchecoslováquia pelo Campeonato da Europa Central, a Hungria perdia por 2 a 1 até os 30 minutos de jogo. Porém, em uma virada memorável, o infalível capitão fez sete gols em ninguém menos que František Plánička — considerado o melhor goleiro do planeta — para sacramentar a contundente vitória de 8 a 3.

"Fazer sete gols numa partida entre seleções é quase impossível, que dirá contra o gigante Plánička", comentou o então técnico da Hungria, Károly Dietz. "Mas Gyurka foi o maior goleador da sua era. Basta conferir as estatísticas."

Os números estabelecem que Sárosi marcou 639 gols em 633 partidas pelo Ferencváros em todas as competições disputadas, além de 42 gols em 62 partidas pela seleção húngara. Mas seria uma injustiça com Sárosi não analisar melhor esses dados. Afinal, enquanto os quatro nomes acima dele na lista de artilheiros da seleção (Ferenc Puskás, Sándor Kocsis, Imre Schlosser e Lajos Tichy) atuaram exclusivamente no ataque, Sárosi começou e terminou as suas participações no selecionado atuando como zagueiro e também jogou no meio-campo.

De modo revelador, entre março de 1934 e dezembro de 1938, período em que atuou quase sempre no ataque, Sárosi marcou 37 gols em 29 jogos na seleção — uma proporção impressionante para alguém que também foi escolhido entre os melhores da Europa como zagueiro e meio-campista.