É difícil até contextualizar com precisão o que significava aquele lance, que hoje parece tão trivial. Eram quatro minutos do segundo tempo, e o Brasil vencia sua estreia na Copa do Mundo da FIFA de 1958 contra a Áustria por 1 a 0. Foi quando o lateral-esquerdo Nilton Santos recuperou uma bola na defesa e avançou. Avançou até o meio-campo e passou-a para José Altafini, o Mazola. E aqui o momento que realmente importa da história toda: em vez de tocar para o atacante e retornar ao campo de defesa, que era seu lugar, Nilton Santos seguiu avançando. Avançando e pedindo a bola. Até o ponto em que a recebeu de volta e bateu colocado para fazer o segundo gol daquela que se tornaria uma vitória brasileira por 3 a 0.

“Naquela época, era quase proibido, para um lateral, passar do meio de campo”, contaria Nilton Santos anos depois. “Dizem que o (técnico Vicente) Feola, na beira do gramado, gritava: ‘Volta! Volta! É louco, esse é louco!’ Sei que, depois que eu marquei o gol, ele só olhou para mim e disse: ‘Boa!’”

Não era a primeira vez na história que um lateral se arriscava no ataque. Não foi, aliás, nem mesmo o primeiro gol de Nilton Santos com a camisa da Seleção – esse havia vindo bem antes, em 1950. Mas, simbolicamente, nascia ali, num jogo de Copa do Mundo, o conceito do lateral tal como o conhecemos hoje: como mais do que apenas um zagueiro atuando pelo lado do campo. “O futebol mudou e hoje é um grande negócio; muito maior do que na minha época”, relembraria Nilton Santos. “Mas eu não invejo os laterais de hoje pelo dinheiro que ganham, e sim pela liberdade que eles têm para atacar.”

Em defesa própria
Isso tudo porque, originalmente, Nilton era atacante. Quando foi levado ao Botafogo em 1948, aos 23 anos, foi ideia do presidente do clube, Carlito Rocha, usar aquela habilidade toda na defesa. Nilton não morreu de amores pela ideia, mas aceitou fazer carreira como lateral-esquerdo. Isso embora nunca tenha se prestado à brusquidão que era comum a quem jogava como zagueiro – e se orgulhado disso. “Minha única cirurgia na vida foi de retirada das amígdalas”, contava ele. “Não machuquei os joelhos, porque nunca dei carrinho."

Não que essa classe toda agradasse de imediato quem estivesse à sua volta – principalmente aos treinadores, inconformados com aquela ousadia toda vindo justo de um defensor. Conta-se, por exemplo, que quando Nilton Santos foi convocado à Seleção Brasileira pela primeira vez, em 1949, o técnico Flávio Costa implicou com a chuteira que o botafoguense usava para jogar: uma de ponta arredondada. “Zagueiro de time que eu comando não pode jogar com uma chuteira dessas, sem bico.” Ao que Nilton teria respondido com uma frase só. “Eu não dou bico na bola.”

Se houvesse dúvidas sobre quanto de verdade havia nessas descrições de Nilton Santos, elas se dissipam diante de um só fato: foi em plenas décadas de 1950 e 60, com o futebol brasileiro produzindo craques às baciadas, que o lateral começou a ser chamado de “A Enciclopédia de Futebol”. E sem nunca ouvir uma voz sequer contestando a legitimidade do apelido. “Parece que não existia uma situação num campo de futebol que surpreendesse o Nilton”, conta ao FIFA.com Zagallo, seu ex-companheiro de lado esquerdo tanto na Seleção quanto no Botafogo. “Você precisava vê-lo cinco minutos no campo para perceber que ele sabia tudo, tudo mesmo, de futebol.”

O que tudo sabe
Nilton Santos conhecia tanto, mas tanto, que soube até o que fazer quando sofreu um dos dribles mais lendários – e, entre os lendários, o que teve menos testemunhas – da história do futebol brasileiro. Era um treinamento como outro qualquer do Botafogo em 1953 e, como tantas vezes, alguns garotos foram colocados em campo para os últimos minutos do coletivo. A diferença daquela vez foi que um desses garotos, ponta-direita, na primeira vez em que tocou na bola partiu sem cerimônia nenhuma para cima de Nilton Santos e lhe colocou a bola entre as pernas. Olhares de estupefação vieram de todo lado. “Quando acabou o treino, no vestiário, eu falei para o (técnico) Gentil Cardoso: ‘olha, não sei se algum lateral vai conseguir parar esse ponta-direita aí, mas eu não vou. Prefiro estar no time dele. Melhor contratar antes que ele vá para outro clube.’” O Botafogo escutou Nilton e contratou o garoto. Nenhum lateral, de fato, conseguiu pará-lo por mais de uma década. Era Garrincha.

Durante anos, além de companheiro em tantas conquistas com o Botafogo e em dois títulos mundiais pela Seleção Brasileira, Garrincha foi uma espécie de irmão mais novo de Nilton Santos. “Eles dividiam quarto na concentração; eram muito amigos. O Garrincha tinha uma reverência pelo Nilton que era uma coisa incrível”, relembra Zagallo. Tanto é verdade que o próprio Nilton Santos nunca deixou de contar que, na sua frente, Garrincha, um alcoólatra implacável, não ousava tomar uma só gota de álcool. Era o respeito que uma Enciclopédia impunha, dentro como fora do campo.

Porque fora do gramado Nilton Santos foi um exemplo de tradicionalismo e pureza; quase ingenuidade. “A vida toda, na fila para receber o salário, eu lembro que pensava: ‘não acredito que estão me pagando para jogar bola, que é o que eu mais gosto de fazer’”, contava ele. E enquanto isso, curiosamente, dentro de campo sua classe e habilidade fizeram mais do que honrar uma tradição. À sua maneira, a Enciclopédia do Futebol revolucionou o verbete “lateral” na história do futebol. “Para quem jogava tanta bola, a posição era o de menos”, lembra o volante Zito, companheiro dos títulos de 58 e 62, em conversa com o FIFA.com. “Até porque, no final das contas, Nilton Santos não era zagueiro, nem era lateral. Era craque e ponto.”