Unanimemente considerado um dos melhores atacantes da história do futebol italiano, senão o melhor, Luigi Riva teve somente duas paixões na vida: o Cagliari e a Azzurra. Combativo, altamente técnico e dono de um chute potentíssimo, o ídolo do clube da Sardenha é o maior artilheiro de todos os tempos com o uniforme nacional, ostentando uma média de gols comparável a de craques do calibre de Pelé, Gerd Müller ou Ferenc Puskás (35 em 42 jogos). Contudo, a lista de conquistas do centroavante não faz jus ao seu admirável talento, e a sua trajetória esportiva ficou marcada por duas graves fraturas sofridas a serviço da seleção.

Nascido em um vilarejo de três mil habitantes na região de Varese, no norte da Itália, Riva demonstrou um irresistível faro goleador desde a mais tenra idade. Com a camisa do modesto Laveno foram 30 em 1961 e outros 33 na temporada seguinte, antes de estrear profissionalmente no Legnano, da terceira divisão, aos 18 anos. Em 1963, foi contratado pelo não muito maior Cagliari, então na Série B, convencido pelo presidente Enrico Rocca. 

Tímido e reservado no dia a dia, mas devastador dentro das quatro linhas, Riva anotou oito gols para levar a equipe sarda à divisão de elite logo na sua primeira campanha. Nos 13 anos que se seguiram, o espetacular camisa 11 recusou sistematicamente as mais mirabolante propostas dos poderosos clubes do norte do país, sobretudo da Juventus, acumulando 164 gols em 315 partidas disputadas com o manto rossoblù. A atitude corajosa certamente lhe rendeu o amor incondicional da torcida do Cagliari e o respeito dos adversários, embora com ela tenha desperdiçado a oportunidade de enriquecer a sua coleção de títulos.

No coração da Sardenha
O canhoto reinou absoluto na ponta-esquerda do Cagliari. Com porte físico avantajado (1,80 m e 80 kg), nunca temeu o contato com os defensores adversários e geralmente fazia a diferença com disparadas avassaladoras, dribles secos, perigosas finalizações de cabeça e lances de extrema habilidade. No entanto, a especialidade de Riva sem dúvida eram os petardos repentinos, potentes e precisos de canhota, que lhe renderam o apelido de Rombo di Tuono ("estrondo de trovão"). Entre 1967 e 1970, ele se impôs como o atacante mais regular do Campeonato Italiano e terminou três vezes na artilharia, dando ao Cagliari o seu primeiro e até hoje único Scudetto graças aos 21 gols que marcou em 1969/1970.

Numa época em que a Velha Bota vivia ao ritmo da rivalidade entre Gianni Rivera e Sandro Mazzola, ídolos do Milan e da Inter e companheiros de seleção, o craque da Sardenha também conquistaria o seu espaço na esquerda do ataque nacional. O início com a Squadra Azzurra aconteceu aos 20 anos, por ocasião de um amistoso na Hungria vencido por 2 a 0 no dia 27 de junho de 1965, mas foi preciso esperar quatro partidas antes de comemorar a primeira bola na rede, numa goleada de 5 a 0 sobre o Chipre. 

Apesar do futebol irrepreensível, Riva não foi incluído na lista dos 22 convocados para a Copa do Mundo da FIFA Inglaterra 1966. "Prefiro não saber por que Edmondo Fabbri não me chamou", conta. "Por outro lado, ele me forçou a ir com o grupo como jogador extra. Eu me esforçava para valer nos rachões entre titulares e reservas durante os treinos, que era a única maneira que eu tinha de extravasar. E eu marcava um gol atrás do outro, estava em plena forma e furioso." 

Por ironia do destino, a Itália acabou sendo desclassificada na primeira fase do Mundial após a histórica vitória da Coreia do Norte no terceiro jogo da chave, uma zebra provocada pelo gol solitário do  camisa 11 norte-coreano, Pak Doo Ik. "Com o meu número, ainda por cima!", reclama Riva. Meses mais tarde, no dia 27 de março de 1967, quando havia enfim conquistado uma vaga de titular no time italiano, o atacante fraturou a tíbia e o perônio da perna esquerda durante uma partida contra Portugal.

Patrimônio nacional
Mas seria preciso mais que isso para frear o ídolo rossoblù. Riva voltou rapidamente ao primeiro plano e viveu o auge da sua carreira no final nos anos 1960. Conquistou o título europeu com a seleção em 1968, foi vice-campeão italiano com o Cagliari na temporada seguinte, venceu a Série A em 1970 e chegou à final da Copa do Mundo no mesmo ano, além de ter sido o segundo jogador mais votado para a Bola de Ouro de 1969, atrás de Rivera, e o terceiro na eleição de 1970.

Durante o glorioso período, Riva marcou 22 gols em 21 partidas para levar a Itália à vitória na Euro 1968, abrindo o placar na final contra a Iugoslávia vencida por 2 a 0. No Mundial de 1970, foi um dos que balançaram as redes na inesquecível semifinal contra a Alemanha Ocidental (4 a 3), mas não conseguiu evitar a derrota diante do Brasil no jogo decisivo.

E o azar voltaria a se abater sobre o centroavante italiano no dia 31 de outubro de 1970, em Viena, quando o zagueiro austríaco Norbert Hof lhe infligiu nova fratura dupla, desta vez na tíbia e no perônio direitos. Sem o genial goleador, o Cagliari acabou sendo eliminado precocemente da Copa dos Campeões da Europa e despencou na classificação do Campeonato Italiano. Contudo, Riva novamente superou as lesões e recuperou toda a sua eficiência na temporada 1971/1972, recolocando o Cagliari entre as grandes forças do futebol pátrio com 21 gols marcados em 30 partidas.

Apesar das façanhas do artilheiro, o clube sardo não conseguiu preservar o rendimento na elite nacional e passou a brigar sobretudo contra o rebaixamento. Riva permaneceu fiel ao time do coração até o fim, mas foi obrigado a pendurar as chuteiras mais cedo em fevereiro de 1976, após lutar contra uma grave contusão nos adutores. Três anos antes, no dia 20 de outubro de 1973, durante um confronto com a Suíça pelas eliminatórias para o Mundial de 1974, ele bateu o recorde então pertencente a Giuseppe Meazza ao inscrever o seu 35º gol com o uniforme italiano, marca que se mantém ainda hoje.