Em apenas sete temporadas e contabilizando 12 jogos pela seleção italiana, Valentino Mazzola entrou para o panteão dos maiores craques já surgidos na Velha Bota, ao lado de Giuseppe Meazza ou Silvio Piola. Curiosamente, por conta dos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial, o meia-atacante jamais teve a chance de disputar uma Copa do Mundo da FIFA.

Capitão do lendário time do Torino que serviu de base para a Squadra Azzurra na década de 1940, Mazzola era talento em estado puro. Versátil e completo, podia ocupar todas as posições com a mesma eficiência. "Se eu tivesse de escolher um jogador indispensável para a minha equipe, não escolheria nem o Pelé e nem o Cruyff, o Platini ou o Maradona, ou melhor, procuraria esses jogadores depois de ter escolhido o Mazzola", comentou o ex-presidente da Juventus Giampiero Boniperti.

Contudo, nove anos antes do Manchester United, que perderia oito jogadores no acidente aéreo de 6 de fevereiro de 1958 em Munique, o Torino desapareceu juntamente com os seus 12 atletas da seleção italiana na tragédia de Superga em 4 de maio de 1949. Ceifado em plena glória, Mazzola entrou para a história do futebol e deu a ele um herdeiro, Alessandro, que perpetuou o nome do ídolo com brio defendendo as cores da Internazionale.

Um longo caminho
De origem humilde e órfão de pai desde menino, Mazzola precisou abandonar os estudos aos 11 anos para trabalhar como ajudante de padeiro. Na época, o seu único contato com o futebol se dava no trajeto entre a casa e o trabalho, que ele percorria invariavelmente equilibrando uma garrafa de leite. Um pouco mais tarde, encontrou tempo para jogar com o Tresoldi, modesta equipe do bairro. Aos 18 anos, a habilidade do jovem chamou a atenção de um vizinho, que conseguiu com que ele fosse contratado como mecânico da Alfa Romeo em Arese, na região de Milão, nem tanto para fazer parte da linha de produção dos carros, mas, sim, da linha de ataque do time da fábrica, que disputava a terceira divisão italiana.

Um ano depois, em 1939, Mazzola precisou cumprir o serviço militar, e o destino lhe reservava mais uma boa surpresa. Reza a lenda que ele foi notado por um oficial, torcedor do Venezia, quando jogava como centroavante do time da Marinha. Por recomendação do comandante, se apresentou ao clube para fazer um teste de pés descalços — preferiu deixar as chuteiras em casa para não gastá-las.

O técnico Giuseppe Girani admirou-se com o que viu e a carreira de Mazzola finalmente deslanchou. O jogador assinou o seu primeiro contrato profissional no dia 1º de janeiro de 1940 e debutou no Campeonato Italiano em 31 de março daquele ano, contra a Lazio. Apesar da derrota pelo placar mínimo na estreia, ele não demorou a se transformar no principal nome do Venezia.

À primeira vista, o porte físico de Mazzola não impressionava. Dentro de campo, porém, ele aparecia de uma ponta à outra do gramado, disparando em velocidade e demonstrando uma resistência digna de maratonista. Capaz de ajudar na defesa graças às entradas precisas, também podia atuar no meio-campo com a mesma qualidade. Não era raro que mudasse de posição três vezes ao longo de um único jogo. Em seguida, no entanto, Mazzola finalmente se estabilizou na meia-esquerda, enquanto o amigo Ezio Loik jogava pelo lado direito.

A consagração
Em julho de 1942, Mazzola se transferiu para o Torino por 1,25 milhão de liras, quantia recorde à época. O presidente Ferruccio Novo, que também contratou Loik, mal tinha ideia de que acabara de fechar o maior negócio da sua vida. A cumplicidade entre Mazzola e o dirigente seria total, a ponto de o jogador batizar o segundo filho com o nome Ferruccio.

Já no primeiro ano, o Torino se tornou o primeiro time da Itália a conquistar os títulos da copa e do campeonato na mesma temporada. O meia-atacante participou de todas as partidas do clube, que registrou goleadas sobre todos os adversários, da Juventus (5 a 1) ao Milan (5 a 0), passando pelo Venezia (4 a 0).

Entre 1942 e 1949, o Torino reinou absoluto no futebol italiano — e também na Europa, onde participou de diversos amistosos, já que as competições continentais ainda não existiam. Mazzola, por sua vez, crescia a cada temporada e se sagrou artilheiro em 1947, com 29 gols em 38 partidas. "Ele ganhava o dobro que os companheiros de time porque eles mesmos quiseram assim", explicara Novo.

De fato, longe de ser um artista da bola que encantava os torcedores apenas pela habilidade técnica, Mazzola era antes um trabalhador incansável que corria o campo inteiro a cada partida, dando o exemplo aos colegas, que precisavam segui-lo nas maratonas.

Pela seleção
Em função da guerra e da morte precoce, Mazzola só pôde disputar 12 jogos com a camisa da Itália. Convocado pela primeira vez para enfrentar a Croácia no dia 5 de abril de 1942, na vitória italiana por 5 a 0, o craque balançou as redes pelo país duas semanas mais tarde, ajudando a golear a Espanha por 4 a 0. Mas a Segunda Guerra chegava ao auge, e ele precisou esperar três anos e meio para voltar à Azzurra.

Os cronistas esportivos da época foram unânimes ao apontarem a última partida do meia-atacante pela seleção — uma vitória por 3 a 1 sobre a Espanha em Madri, no dia 27 de março de 1949 — como a melhor apresentação dele, digna das atuações pelo Torino. O saldo é modesto (12 partidas, nove vitórias e um empate, além de quatro gols), mas não reflete o talento de Mazzola.

Superga
Mazzola sofria de angina e, em princípio, não entraria em campo no amistoso com o Benfica marcado para o dia 3 de maio em Lisboa. Mas ele insistiu em acompanhar o Torino, já que a partida era uma homenagem ao amigo Francisco Ferreira. A morte aguardava o ídolo no caminho de volta para casa.

O avião Fiat G.212 que transportava 31 pessoas, entre jogadores, dirigentes e jornalistas que acompanhavam o Torino, se chocou contra a Basílica de Superga, na região de Turim. Não houve sobreviventes.

Com Mazzola, desaparecia também o grande Torino. No dia 6 de maio de 1949, 500 mil pessoas participaram dos funerais. Por sugestão dos demais clubes da Série A, o Torino foi declarado campeão a quatro rodadas do fim do campeonato.