Em 1949, há mais de 60 anos, o mundo era outro, ainda em recuperação de uma grande guerra. O futebol estava em franca ascensão, mas ainda era amador na maioria dos países. No início do ano, durante o frio inverno sueco, um bombeiro se despediu dos colegas de trabalho. O homem de 27 anos, criado em uma singela casa de um quarto ao lado dos pais e dos nove irmãos em um vilarejo na costa leste do país, havia conquistado um novo emprego na capital internacional da moda.

Depois da viagem, o rapaz chegou ao primeiro dia de trabalho com roupas comuns, enquanto os colegas usavam os ternos Brioni que encantavam os ricos e famosos italianos, combinados com sapatos de marca imaculadamente polidos e relógios de luxo. O homem nascido em Hörnefors demonstrava humildade e chegava a duvidar do seu futuro na Lombardia. "Era um mundo diferente para mim", contaria posteriormente o escandinavo. "Eu não sabia se conseguiria me assentar."

Porém, foram os novos colegas do sueco que conheceram a sensação de inferioridade no local de trabalho. Esse local de trabalho, para Gunnar Nordahl, ficava dentro da área do adversário. Foi nela que o matador marcou 210 gols em 257 jogos do Campeonato Italiano, conquistando a artilharia do certame em cinco ocasiões — recorde absoluto — e levando o Milan a dois títulos nacionais, o primeiro deles encerrando um jejum de 44 anos.

Talento precoce
Nordahl foi o primeiro jogador profissional de nacionalidade sueca, mas mesmo antes dos sete anos na Lombardia já havia tido uma carreira notável. A história começou em 19 de outubro de 1921, quando ele nasceu em uma família numerosa em situação econômica difícil. O pai de Nordahl trabalhava duro em uma fábrica de polpa de celulose para sustentar os dez filhos, criados pela mãe em instalações reduzidas. Ironicamente, os pais não tiveram condições de comprar uma bola para os cinco filhos homens, mas todos eles acabaram virando jogadores.

Gunnar tinha cerca de oito anos quando deu os primeiros chutes e não demorou a superar os colegas de escola tanto física quanto tecnicamente. Ele conseguiu um emprego em uma cervejaria durante a adolescência, mas foi nos campos de futebol que logo começou a causar ressaca nos rivais. De grande estatura e ombros largos, estreou pelo modesto Horneförs aos 16 anos. Três temporadas, 41 partidas e 68 gols depois, foi para a primeira divisão sueca defender o Degerfors, no qual continuou com uma excelente média de gols.

Em 1944, ele já tinha 1,81 metro e 95 quilos, e as armas do seu arsenal também estavam bem mais poderosas. Excelente no jogo aéreo, também levava perigo a cada chute de sem-pulo. Uma exceção foi o arremate contra o Malmö naquele mesmo ano, mas mesmo assim o jovem pôde comemorar: a bola saiu tão forte que rompeu a tela de proteção e foi parar na torcida. O lance acabou levando o então campeão sueco a buscar a sua contratação. Na briga também entrou o IFK, que venceu a disputa por poder oferecer a Nordahl um emprego como bombeiro na cidade de Norrköping.

Ele anotou 87 gols em 85 jogos do Campeonato Sueco pelo IFK, levando o time ao título nas quatro temporadas que jogou, todas elas como artilheiro da competição. Nenhum outro jogador superou essa marca de quatro artilharias e nenhum outro marcou mais do que os sete gols anotados por ele na goleada de 11 a 1 sobre o Djurgarden em 1945.

Nordahl também bateu muitos recordes defendendo a seleção sueca, com a qual estreou em 1942 e marcou 43 gols em 33 jogos. O auge veio no Torneio Olímpico de Futebol Masculino de 1948, em Londres. A Áustria de Ernst Ocwirk, a Dinamarca de John Hansen e a Holanda de Faas Wilkes eram as favoritas. A Suécia era totalmente desconhecida do grande público, mas não foram necessários mais do que dez minutos para que Nordahl colocasse os escandinavos com dois gols de vantagem na partida em que venceram a Áustria por 3 a 0.

Depois veio uma goleada de 12 a 0 sobre a Coreia do Sul e uma grande vitória por 4 a 2 na semifinal diante da Dinamarca. Na decisão, os suecos bateram a Iugoslávia por 3 a 1. Artilheiro do torneio com sete gols, Nordahl fez o tento do título em frente a um público de 60 mil espectadores em Wembley.

"Nordahl nasceu para fazer gols", entusiasmou-se um dos técnicos daquela seleção vitoriosa, George Raynor. "Ele não era um jogador muito atlético, mas era muito inteligente na hora de encontrar espaço e poderia colocar a bola na rede mesmo de olhos vendados. Se tivéssemos contado com ele em 1950, certamente teríamos conseguido mais que o terceiro lugar (atrás de Brasil e Uruguai na Copa do Mundo da FIFA)."

Adeus à pátria
Depois de sair da Suécia e se profissionalizar em 1949, Nordahl não pôde mais ser convocado para a seleção. Embora a decisão não tenha sido boa para os seus compatriotas à época, ela veio a beneficiar muitos outros suecos que o seguiram rumo ao futebol italiano nos anos seguintes.

Nenhum dos escandinavos, contudo, chegou perto de superar o Canoniere, como ele ficou conhecido pelos chutes que pareciam tiros de canhão. Nordahl estreou pelo Milan em uma vitória de 3 a 2 sobre o Pro Patria, e é claro que já deixou o seu. Nos 15 jogos que disputou naquela temporada de 1948/49, ele anotou 16 gols, uma estatística que fez o clube renovar o seu contrato e adquirir mais dois suecos por recomendação dele.

Reunidos, Nils Liedholm, Gunnar Gren e Nordahl formaram um trio inesquecível que ganhou o apelido de Gre-No-Li e foi fundamental para os títulos nacionais do Milan em 1951 e 1954. "Gren, Liedholm e eu nos entendíamos por telepatia, o que desenvolvemos em anos de treinamento juntos", relembrou o jogador. "O que só percebi ao chegar à Itália foi que a movimentação na Suécia era mais avançada, o que aproveitei para encontrar espaços entre os jogadores de defesa. Liedholm e Gren sempre me davam passes perfeitos, o que resultava em muitas finalizações simples para mim."

O comentário foi um exemplo da modéstia de um dos grandes nomes da história do futebol europeu, já que 11 dos seus 35 gols na temporada 1949/50 foram golaços de sem-pulo — um recorde italiano do pós-guerra. "Ele pegava na bola com tanta força que, mesmo sendo destro, marcava gols até com o pé esquerdo", afirmou Gren sobre o homem que ainda encerrou a carreira com duas temporadas na Roma. "Ele fazia gols fáceis e outros espetaculares. Aparecia em posições que outros nem sabiam que existiam. Foi um dos melhores jogadores de todos os tempos, e na minha opinião um dos melhores artilheiros."

As estatísticas confirmam a opinião de Gren. Silvio Piola é o único jogador a ter feito mais gols na Série A, mas o italiano precisou de 15 temporadas a mais para superar o sueco em 49 gols. Já a média de 0,77 gol por partida obtida por Nordahl supera a de qualquer outro jogador a ter disputado mais de cem partidas na competição. E a média de 1,3 gol por jogo pela Suécia é uma das maiores da história das seleções de todo o mundo.

Nordahl faleceu em setembro de 1995, mas a sua lembrança viverá para sempre no coração dos torcedores da Suécia e do Milan. Assim como ainda terão longa vida muitos dos seus inúmeros recordes de artilharia.