Nos esportes coletivos, em certos momentos é difícil situar os protagonistas dos grandes feitos no seu devido contexto. A razão é simples: enquanto alguns ficam com os papéis principais e fazem as vezes de heróis, outros se veem relegados a uma espécie de segundo plano, cumprindo assim funções menos relevantes ou sendo responsáveis pelo "trabalho sujo", ao menos do ponto de vista do espectador.
É com isso em mente que o FIFA.com relembra a carreira de Roque Gastón Máspoli, alguém que foi muito mais do que o goleiro do Uruguai no inesquecível Maracanazo. É bem verdade que o dia 16 de julho de 1950 e a vitória sobre o Brasil no último jogo daquele Mundial marcaram profundamente a sua carreira, mas isso não foi tudo: Máspoli foi um dos atletas uruguaios mais bem sucedidos da história e demonstrou em mais de seis décadas sua paixão pelo esporte.
Revelado no Nacional, destaque do Peñarol
Máspoli nasceu em Montevidéu no dia 12 de outubro de 1917, "no mesmo dia em que Colombo descobriu a América", como costumava dizer. Apesar de ser torcedor e defensor do Peñarol quando pequeno, foi revelado nas categorias de base do Nacional, em cuja equipe reserva começou a atuar como goleiro já aos 16 anos. Depois de seis anos no clube, passou outros dois no Liverpool da capital uruguaia, com o qual estreou na primeira divisão. Em 1941, Máspoli chegou ao Peñarol, onde se tornaria ídolo.
Já em 1944, ganhou o primeiro dos seus seis Campeonatos Uruguaios com o clube aurinegro. Em 1945, fez a sua estreia pela seleção celeste e voltou a ser campeão com o Peñarol, feito que não se repetiria até 1949, quando integrou a equipe que ficou conhecida como "A Máquina". Naquele ano, começou a competição na reserva e só jogou as últimas rodadas porque o titular Flavio Pereyra Nattero se contundiu. Porém, as suas atuações em campo — onde contracenava com Obdulio Varela, Alcides Ghiggia e Juan Alberto Schiaffino — lhe garantiram a camisa 1 do Uruguai para a Copa do Mundo da FIFA Brasil 1950.
Apesar do porte físico avantajado — tinha 1,83 metro de altura e pesava cerca de 90 quilos —, a flexibilidade e o senso de antecipação de Máspoli fizeram dele um goleiro que mostrava grande segurança nas bolas rasteiras, ainda que mostrasse certas deficiências no jogo aéreo. "Quando eu saía do gol, sempre dava um soco por cima do jogador que cabeceava, para que ele não pudesse saltar com tranquilidade", admitiu mais tarde. "Os árbitros nunca apitavam isso." No entanto, a sua visão de jogo e a sua personalidade — duas qualidades que ele soube transmitir aos companheiros e comandados — sempre impressionaram.
Entre Mundiais e voltas olímpicas
O Mundial de 1950 foi evidentemente um marco na carreira de Máspoli. O Uruguai arrasou a Bolívia na estreia e começou a fase final com um empate diante da Espanha. Porém, um sofrido 3 a 2 sobre a Suécia obrigava a Celeste a vencer o Brasil na partida decisiva para ser campeã. "No Maracanã havia 200 mil pessoas, era um inferno", relembrou o goleiro. "Eles vinham de goleadas. Ninguém acreditava em nós, a não ser nós mesmos!"
Aos três minutos, ele pouco pôde fazer para evitar o gol de Friaça, que chutou da pequena área. Mas e depois? "Conforme ia passando o tempo e eles não conseguiam fazer o segundo, a torcida começou a se calar e eles, a duvidarem", contou. "O empate do Schiaffino acabou com os brasileiros. Eu pensei: 'Não teremos tempo para ganhar o jogo'. Mas depois veio o gol do Ghiggia e eles já não podiam reagir."
Apesar de o Brasil inteiro ter culpado o goleiro Barbosa pelo segundo gol uruguaio, Máspoli o defendeu. "Era difícil defender os chutes do Ghiggia, porque ele batia com efeito", explicou. "No meu ponto de vista, o Barbosa se afastou da trave para cortar um cruzamento para trás, porque, pelo meio, entravam outros dois jogadores. Considerando a maneira como o Ghiggia chutava, acho que foi mais uma virtude do atacante do que um erro do goleiro." Não é à toa que o ex-técnico Telê Santana descreveu Máspoli como um "cavalheiro do esporte".
Após aquela epopeia, ele conquistou os títulos uruguaios de 1951 e 1953 com o Peñarol e ninguém duvidava de que seria o titular na Suíça 1954. Naquele torneio, o Uruguai venceu as duas partidas da fase de grupos sem sofrer gols e depois eliminou a Inglaterra nas quartas de final, por 4 a 2. Na sequência, o país sofreria a sua primeira derrota em um Mundial para a Hungria, já na prorrogação. O jogo que muitos chamaram de o "Duelo do Século" terminou com um 4 a 2 no placar para os húngaros. Com a derrota de 3 a 1 para a Áustria na partida seguinte, Máspoli e os companheiros ficaram de fora do pódio.
Na volta ao país, o arqueiro ainda conquistou o seu último título nacional como jogador, ainda com a camisa aurinegra. Em meados de 1955, com 38 anos e um considerável excesso de peso, Máspoli decidiu se aposentar e passou a comandar o Peñarol interinamente, ao lado de Obdulio Varela.
Da meta ao banco
Em 1964, quase uma década depois daquela curta experiência, Máspoli voltou a assumir o Peñarol, sagrando-se campeão naquele ano e no seguinte. O melhor veio em 1966, quando a equipe venceu a Libertadores e superou o Real Madrid de Pirri e Francisco Gento na decisão da Copa Intercontinental. "Que pessoa extraordinária!", recordou o paraguaio Juan Vicente Lezcano, líbero daquela equipe. "Ele falava com você como se fosse um pai, dava para sentir o carinho dele. Sabia manter um clima de alegria no vestiário."
Aquele ciclo de Máspoli no Peñarol terminou em 1967, com mais um troféu. Porém, ele regressaria ao clube outras cinco vezes, ganhando títulos em 1985 e 1986. Neste último ano, deu uma boa demonstração da sua personalidade: mandou o jovem Gustavo Matosas, então com 18 anos, bater o pênalti decisivo no clássico contra o arquirrival Nacional, após um empate sem gols no tempo normal e na prorrogação. Como técnico, também foi campeão em 1974 no Peru, com o Deportes Lima, e em 1987 no Equador, com o Barcelona.
Treinou a seleção uruguaia em duas oportunidades. A primeira, entre 1979 e 1982. Em 1981, ganhou o "Mundialito" com a Celeste Olímpica, torneio disputado em Montevidéu para comemorar o 50º aniversário da primeira Copa do Mundo. Na competição, superou ninguém menos do que Brasil, Argentina, Alemanha Ocidental, Itália e Holanda, apesar de posteriormente não ter conseguido se classificar para a Espanha 1982. Um dos seus carrascos nas eliminatórias para aquele Mundial foi ironicamente o peruano Julio César Uribe, que o próprio Máspoli havia promovido à equipe principal do Sporting Cristal em 1977.
O ex-goleiro voltou a ser convocado em 1997 para comandar o Uruguai nos últimos cinco jogos das eliminatórias para a França 1998, mas os sete pontos que somou foram insuficientes. Após preparar o terreno para a chegada do seu sucessor, Víctor Púa, se aposentou definitivamente da função em meados de 1998.
Máspoli foi hospitalizado em 10 de fevereiro de 2004 com problemas cardíacos e faleceu 12 dias depois. Tinha então 86 anos — 64 dos quais dedicados ao futebol, esporte que, apesar de tudo, o recordará para sempre como "o grande goleiro do Uruguai".







