País de grandes defensores, a Itália revelou uma série de jogadores talentosos nas mais diversas posições da retaguarda, mas dois laterais marcaram época nesse setor do gramado. Um, Giacinto Facchetti, entrou para a história como o primeiro ala a sair do confinamento da zaga e projetar-se progressivamente ao ataque, usando toda a extensão do seu corredor. O outro, Paolo Maldini, simboliza a elegância em estado puro, a capacidade de antecipação no lugar da intimidação. O FIFA.com presta homenagem a um jogador exemplar que, em 24 anos de profissão e 902 partidas oficiais, das quais 647 na Série A italiana, sempre vestiu a camisa do Milan.

Paradoxalmente, por assim dizer, Maldini não teve o mérito da originalidade. Embora a paixão pelo futebol lhe acompanhe desde a mais tenra infância, com um pai como Cesare, tenaz lateral direito da seleção italiana e do Milan de 1954 a 1966 e inflexível na cultura do catenaccio, era como se o destino de defensor estivesse traçado. Assim, em 1978, aos dez anos de idade, Paolo passou a integrar as equipes juvenis rubro-negras. Rapidamente, impôs-se pelo refinamento natural, pela grande correção e por um senso de movimentação que só se aprimorou ao longo do tempo. E, também rapidamente, calou as más línguas e superou o estigma de filho de jogador para inscrever o seu próprio nome na história do esporte.

O talento e a sorte
Foi pelas mãos de um ex-companheiro de time do pai, o sueco Nils Liedholm, que Maldini recebeu a chance de estrear no Campeonato Italiano em 20 de janeiro de 1985, aos 16 anos e 208 dias, por ocasião de uma partida com a Udinese que terminou empatada em 1 a 1. Já na temporada seguinte, tornou-se titular absoluto. À época, não imaginava que passaria mais de duas décadas no Milan. Mas, além das diversas qualidades técnicas, táticas e físicas, Maldini também tinha sorte.

Primeiramente, a sorte de despontar durante um período em que a Itália já não se fechava numa defesa cega, pelo contrário, abria-se a um sistema de jogo que exige o apoio dos laterais. Nesse futebol jogado pelos flancos, tão em voga hoje em dia, Maldini roubou a cena em plena explosão das transmissões televisivas.

Além disso, ele também teve a sorte de atuar numa das melhores linhas de zaga da história do futebol, ao lado de Mauro Tassoti, Franco Baresi e Alessandro Costacurta. Embora jogasse com mais frequência na lateral esquerda, Maldini não era canhoto, e sim perfeitamente ambidestro.

Após uma temporada e meia com as equipes juvenis italianas, era natural que ele fosse convocado para a seleção principal. A estreia com a Azzurra aconteceu na visita à Iugoslávia do dia dia 31 de março de 1988, saldando-se com empate em um gol. Dali em diante, os títulos se sucederam em ritmo acelerado. Liderada por Maldini, a armada milanista conquistou cinco edições da Liga dos Campeões da UEFA, sete do Campeonato Italiano, duas da Copa Intercontinental e uma Copa do Mundo de Clubes da FIFA — currículo que provoca ainda mais admiração quando se pensa que ele também perdeu duas finais de Liga dos Campeões e três da Copa Intercontinental.

Uma filosofia e um choque
Tamanho sucesso atribui-se à filosofia do clube. "O Milan sempre tentou criar o seu próprio jogo, antes de tentar destruir o do adversário", explica Maldini. "Os jogadores mudaram, mas não a filosofia." Quanto aos defeitos, o italiano demonstra grande sabedoria ao admitir que acabou por "aceitá-los como parte do jogo".

Maldini era genial, mas sofreu um duro golpe ao final da temporada 1996/97, quando Baresi, o grande articulador dos movimentos da defesa rossonera, decidiu pendurar as chuteiras. O Milan, por sua vez, tomou duas decisões: a de aposentar a camisa 6 e a de entregar a braçadeira a Maldini, transformando-o em sucessor do emblemático líbero. Ele também passou a ser o capitão da seleção italiana.

Assim como o resto do time do Milan, porém, Maldini sentiu a ausência do influente Baresi, tanto mais pelo fato de que precisava se acostumar às novas funções no miolo de zaga. Algumas pessoas começaram a achar que o jogador havia entrado em uma curva descendente, mas a resposta veio com a chegada do técnico Alberto Zaccheroni e a adoção de uma defesa com três zagueiros. Maldini voltou à lateral e, como por milagre, o Milan inteiro renasceu das cinzas para faturar mais um Scudetto em 1998/99. Agora com 30 anos, o craque passou a jogar definitivamente como zagueiro, surpreendendo e encantando mais uma vez pelo senso de posicionamento.

Para além dos títulos
A grande lacuna da carreira de Maldini foi não ter vencido um título importante com a camisa da Itália, embora tenha chegado perto em duas ocasiões. Na primeira, na decisão da Copa do Mundo da FIFA EUA 1994, a partida contra o Brasil terminou sem gols e ele não participou da disputa por pênaltis que definiu o destino da taça. Na segunda, a final da Euro 2000 contra a França, os dois tentos franceses não passaram pelo setor de Maldini, mas ele foi vítima pela primeira vez da extinta regra do gol de ouro.

Maldini encerrou a sua carreira na seleção após a eliminação italiana nas oitavas de final do Mundial de 2002, com a derrota por 2 a 1 diante da Coreia do Sul novamente definida pelo gol de ouro. Apesar disso, a trajetória dele com o uniforme azul é invejável, com 126 partidas, das quais 74 como capitão. Maldini foi durante muito tempo o recordista em número de jogos pela Itália, até ser superado pelo também zagueiro Fabio Cannavaro (136).

Mesmo assim, não se pode reduzir Maldini ao seu currículo, por mais que ele seja excepcional. Dentro e fora de campo, pelo futebol e pelo comportamento, o italiano sempre foi uma figura exemplar. Também é impossível encontrar registro de deslealdade por parte daquele que muitas vezes foi descrito como um gentleman. Prova disso é que Maldini recebeu um único cartão vermelho em mais de mil jogos oficiais — e durante um amistoso.

Pouco antes da aposentadoria do craque, em 2009, os torcedores da arquirrival Internazionale homenagearam Maldini no último dérbi que ele disputou. "Foi uma surpresa maravilhosa", comentou o jogador. "Do ponto de vista humano, acho que foi uma das maiores satisfações que jamais tive."

Verdadeiro modelo de profissionalismo e símbolo de altruísmo para os colegas, Maldini permaneceu fiel aos seus princípios até o fim. Discreto, não deixou que organizassem um evento grandioso para marcar a sua despedida. "Prefiro uma festa sóbria, à imagem da minha personalidade", explicou.