Muitas crianças que jogam futebol sonham em se tornar centroavantes ou meia-atacantes, quem sabe até goleiros, mas são raras as que dizem que gostariam de ser laterais. De fato, é mais comum que um jovem atleta vire lateral esquerdo não por escolha, mas por circunstância — geralmente um ala a quem se pede para recuar, ou um zagueiro que se desloca por necessidade do time ou decisão do treinador. Mas não na Holanda. Desde a década de 1970, os holandeses não jogam na lateral esquerda por falta de opções, e sim por vocação e inspiração de um ídolo: Ruud Krol.
Para fazer justiça, porém, é preciso acrescentar que, além de ter sido o melhor lateral esquerdo da sua época, ele também foi um dos melhores alas, um dos melhores meio-campistas e um dos melhores líberos do período — um ícone do revolucionário futebol total apresentado ao mundo por Rinus Michels, filosofia que exige sólidas capacidades atléticas à qual Krol aliava grande inteligência tática. "O nosso sistema era uma solução para os problemas físicos", explica o ex-defensor. "Como jogar 90 minutos e conservar a energia? Se eu correr 70 metros como lateral esquerdo, não vai ser bom se de repente eu precisar correr 70 metros no sentido contrário para retomar a minha posição. Portanto, se o meia esquerdo assumir a minha posição e o ponta assumir o meio-campo, as distâncias diminuem. Esta era a nossa filosofia."
Uma filosofia ainda mais fácil de aplicar na seleção quando trabalhada diariamente no clube, como Krol fez desde a chegada ao Ajax em 1968. O atleta reinou no corredor esquerdo da equipe de Amsterdã na Holanda, na Europa e no mundo, conquistando o campeonato nacional em 1970, 1972, 1973, 1977, 1979 e 1980, a Copa dos Campeões em 1972 e 1973 e a Taça Intercontinental em 1972.
A força da disciplina
Claro que tudo fica mais fácil quando se faz parte de um time dos sonhos, mas às vezes esquecemos do quanto é difícil chegar lá. Contratado por uma soma modesta junto ao pequeno Rood Wit, Krol precisou de paciência para ser promovido do combinado de aspirantes à equipe principal do Ajax. O primeiro obstáculo que ele precisou superar foi o fato de ser destro e de o titular da lateral direita ser Wim Suurbier, que na época era tido como o melhor do mundo na posição. Mas Krol não se abateu, trabalhando a canhota durante meses até se tornar o sucessor de Theo van Duivenbode na outra lateral já em 1969.
A segunda dificuldade era a pouca honrosa fama de possuir forte tendência à dispersão. "O maior perigo para a carreira do Ruud não era o lateral direito do Feyenoord e nem o René van de Kerkhof do PSV, mas as moças bonitas nas discotecas e bares do centro histórico de Amsterdã", comentou Michels em mais de uma ocasião. Felizmente, porém, na sua primeira pré-temporada com o elenco profissional do Ajax, o lateral fez amizade com Nico Reynders, jogador recém-contratado pelo clube e que seria de uma influência capital para mandar o impetuoso Krol mais cedo para a cama e para mantê-lo até tarde nos treinamentos.
Krol entendeu o recado e se transformou em exemplo de profissionalismo. "De vez em quando eu ainda ia ao cinema ou às boates, mas o futebol ocupava a maior parte dos meus pensamentos", recorda ele, comentando sobre uma geração igualmente reputada pela seriedade dentro de campo quanto pela descontração fora dele. "Certos jogadores eram mais atraídos pela vida noturna. Eu só queria saber de futebol. Às vezes o Michels me achava estressado demais. Nessas horas, ele vinha falar comigo e dizia: 'Relaxa, Ruud, vá se divertir um pouco'. Era o que eu fazia, mas nunca antes de um jogo importante."
Elogios sem título
Na véspera da decisão da Copa do Mundo da FIFA Alemanha 1974, quando o jornal alemão Bild Zeitung publicou uma matéria sobre jogadores holandeses que teriam passado uma noite agitada em boa companhia à beira de uma piscina, compreende-se por que Johan Cruyff reuniu os companheiros para anunciar que eles tinham um sério problema. Enquanto uns negavam e outros denunciavam complô dos alemães, o único elemento comprovado é que a Holanda entrou em campo desestabilizada para enfrentar os donos da casa no dia seguinte. Krol, por sua vez, diminui a importância do episódio. "Em todo lugar é assim, a imprensa faz de tudo para que o país-sede vença", temporiza. "Lemos a reportagem, claro, mas estávamos concentrados na final."
Tão concentrados que, no primeiro minuto de jogo, os alemães sequer haviam tocado na bola quando o juiz apitou pênalti por uma falta de Uli Hoeness em Cruyff. Johan Neeskens converteu a cobrança, mas os holandeses não aproveitaram o bom começo de partida e acabaram perdendo por 2 a 1. O gol da virada foi assinado por Gerd Müller, numa jogada em que o craque germânico levou a melhor no mano a mano com Krol. "Eu havia bloqueado o primeiro chute dele, mas no segundo a bola saiu meio mascada, senão eu teria pego", consola-se Krol. "O chute acabou quicando até o gol."
Franz Beckenbauer e Cia. levantaram a taça, mas quem encantou o planeta bola foram os holandeses, que causaram sensação ao longo de uma campanha em que venceram o Uruguai por 2 a 0, eliminaram a Argentina com 4 a 0 e despacharam o então campeão Brasil também por 2 a 0. Para os especialistas, a consagração da Holanda era uma questão de tempo, tamanha a distância que separava o país das demais seleções.
Prova disso veio quatro anos mais tarde na Argentina. Mesmo sem Cruyff, que desistiu de integrar a Laranja Mecânica em 1977, a Holanda chegou até a final dando espetáculo capitaneada por Krol, desta vez como líbero. Mas o destino colocou os holandeses novamente diante dos donos da casa e da sua apaixonada torcida na decisão. E, a exemplo de Müller no Mundial anterior, um inspiradíssimo Mario Kempes selou a derrota dos europeus por 3 a 1 na prorrogação, depois de eles terem empatado o jogo em 1 a 1 aos 37 do segundo tempo e de uma bola na trave de Rob Rensenbrink, em jogada de Krol, nos últimos segundos do tempo regulamentar.
Se existe um debate em torno do melhor jogador que nunca venceu a Copa do Mundo da FIFA — Platini? Di Stéfano? Puskás? Zico? Eusébio? —, a resposta é bem mais simples quando a pergunta diz respeito a seleções. Nem mesmo a lendária Hungria de 1954 tira essa triste distinção da Holanda. "Resta uma ferida profunda, não virei a página", admite Krol, passadas mais de três décadas da dupla decepção. "É muito triste não ter sido campeão do mundo com uma equipe que jogava tão bem. Tenho duas medalhas de prata, mas trocaria ambas por uma única de ouro. Sempre seremos aqueles que jogam bem e não ganham nada. A seleção de 1988 conquistou a Eurocopa, mas não a Copa do Mundo. E a Copa do Mundo é outra história."
No lugar certo na hora errada
O futebol holandês deixou escapar a chance de consagração no cenário mundial, ao mesmo tempo em que o reinado do Ajax na Europa foi interrompido pela supremacia de clubes alemães e ingleses, que dividiram dez títulos continentais entre 1974 e 1983. Em 1980, Krol festejou o seu aniversário de 31 anos entregando-se a um novo desafio em solo norte-americano, com a transferência para o Vancouver Whitecaps. Contudo, apenas 14 partidas no time canadense bastaram para que ele percebesse que era cedo para pensar em pendurar as chuteiras, assinando contrato com o Napoli.
O trem da história, no entanto, passaria novamente diante dos olhos do defensor holandês. Após quatro temporadas em branco no time italiano, com exceção do prêmio individual de melhor jogador estrangeiro da Série A em 1981 e do título de queridinho da torcida napolitana, ele deixou o clube em 1984, poucos dias antes da chegada de um certo Diego Maradona. Enquanto o Napoli escrevia as primeiras páginas do seu mito, Krol traçava as últimas do seu com a camisa do Cannes, na segunda divisão francesa.
Na cidade que recebe o maior festival de cinema do mundo, o holandês resumiu a sua trajetória esportiva em poucas palavras: "O futebol não é uma arte, a arte é jogar bem." Palavra de artista.




