"Gooool", gritou Pelé após mandar uma cabeçada certeira na partida entre Brasil e Inglaterra na Copa do Mundo da FIFA México 1970. Tanto o Rei, quanto os 67 mil torcedores presentes no Estádio Jalisco e os milhões de telespectadores ao redor do planeta, tinham certeza de que aquela bola estava destinada a ir parar no fundo das redes.
No entanto, para o espanto de todos, Gordon Banks não se curvou ao destino e evitou o gol do camisa dez brasileiro. Mais tarde, até mesmo o goleiro inglês admitiu que, no momento, não acreditava que seria possível fazer a defesa.
Mas foi exatamente isso o que aconteceu. Banks simplesmente arremessou o corpo para o lado direito, arqueando o braço para trás e esticando-o a uma distância que quase desafiou a física para defender milagrosamente, com o dedão, a bola adidas Telstar que ia entrando caprichosa no canto inferior direito. E tudo isso com absoluta elegância de movimentos.
"Na hora em que cabeceei, tinha certeza que seria gol", relembrou mais tarde Pelé. "Eu já tinha começado a pular para comemorar. Quando olhei, não consegui acreditar."
Início tardio
A defesa feita naquele dia é considerada até hoje a mais espetacular de todos os tempos. O próprio Banks declarou certa vez que o lance era certamente o motivo de ele "ser tão famoso". No entanto, é quase injusto dar tanta atenção apenas àquele momento se levarmos em consideração a sua excepcional carreira.
A trajetória do guarda-metas começou tarde. Ele ainda trabalhava como pedreiro aos 18 anos e só estreou profissionalmente quando estava perto de completar 22. Peter Shilton, por exemplo, sucessor de Banks no Leicester City e no English Team, debutou na primeira divisão inglesa aos 16 anos.
No entanto, o jogador nascido em Sheffield soube recuperar o tempo perdido. Sete meses depois da estreia pelo Chesterfield, da terceira divisão, Banks foi contratado pelo Leicester por sete mil libras esterlinas para ser o reserva de Dave MacLaren. Em pouco tempo, ele deixou o confiável goleiro escocês no banco de reservas e passou a ser reverenciado pela torcida do clube pelos oito anos seguintes graças ao seu excelente posicionamento, confiança para sair jogando e, especialmente, reflexos impressionantes.
O auge de Banks debaixo das traves do Leicester foi a vitória na final da Copa da Liga Inglesa em 1964. Por outro lado, os seus piores momentos foram derrotas em duas finais da Copa da Inglaterra. A primeira aconteceu em 1961 contra o Tottenham, que tinha um elenco fenomenal, e a segunda ocorreu dois anos mais tarde em um jogo atípico em que Banks sofreu dois gols do Manchester United.
Em 1967, com o surgimento de Shilton, o Leicester tomou uma decisão completamente inesperada e vendeu o goleiro de 29 anos. Banks deixou o clube para brilhar no Stoke City, onde disputou 246 partidas nos cinco anos seguintes e levou a equipe ao seu único título até hoje: a Copa da Liga Inglesa de 1972.
Ídolo inesquecível da seleção
Mas foram mesmo as atuações de Banks pelo seu país que lhe garantiram a fama como um dos melhores goleiros da história. Ele estreou pela seleção em 1963 e foi o titular na vitoriosa campanha da Inglaterra na Copa do Mundo da FIFA 1966.
Embora não tenha sido o destaque da vitória por 4 a 2 do English Team sobre a Alemanha Ocidental na decisão, o goleiro teve um rendimento excepcional ao longo do torneio. Depois de permanecer 442 minutos sem sofrer gols, Banks só foi buscar a bola no fundo das redes na semifinal contra Portugal, quando Eusébio marcou em cobrança de pênalti. A sequência de sete jogos sem sofrer gols é até hoje o recorde do selecionado inglês.
Banks também foi um dos destaques da Inglaterra no México 1970. Na fase de grupos, ele garantiu o zero no placar do seu país em duas das três partidas e ainda fez a antológica defesa na cabeçada de Pelé na derrota por 1 a 0 contra o Brasil. No entanto, após beber uma garrafa de cerveja, possivelmente estragada, na véspera das quartas de final contra a Alemanha, o goleiro passou mal e acabou não entrando em campo. "Tantos jogadores na equipe e perdemos justamente ele", lamentou o técnico Alf Ramsey, que escalou Peter Bonetti para substituir Banks.
A Inglaterra começou vencendo por 2 a 0 e tudo indicava que sairia com a vitória, mas aos 23 minutos do segundo tempo Franz Beckenbauer diminuiu o placar e colocou os alemães de volta na partida. Mais tarde, o Kaiser disse acreditar que, se Banks estivesse jogando, o seu gol não teria acontecido. No final, Helmut Schön marcou o gol da virada por 3 a 2.
Infelizmente, o azar de Banks não parou por ali. Em outubro de 1972, ele ainda era o camisa um da Inglaterra quando perdeu a visão do olho direito em um acidente de carro. O goleiro nunca mais jogou em alto nível no seu país, mas retornou da aposentadoria em 1977 para defender o Fort Lauderdale Strikers, dos EUA, antes de pendurar definitivamente as luvas que haviam frustrado as tentativas de alguns dos maiores goleadores que o mundo já conheceu.
Um lugar na história
"Quando ia enfrentar o Gordon, eu costumava perguntar a mim mesmo como seria possível superar aquele homem", disse certa vez Jimmy Greaves, um dos maiores artilheiros da história do futebol inglês.
A mesma pergunta também foi feita por Pelé naquela tarde no México. "Sei que marquei aquele gol, o Banks é que roubou ele de mim", brincou o maior jogador de todos os tempos. "As pessoas sempre vão se lembrar de mim por aquilo", completou Banks. "Não vão se lembrar de mim por vencer a Copa do Mundo, e sim por aquela defesa. É essa a importância daquele lance. Todos só querem falar sobre aquilo."
Embora isso possa ser verdade, Banks está imortalizado no panteão dos maiores goleiros da história. A Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (IFFHS) elegeu o inglês como o segundo melhor arqueiro do século XX, acima de Dino Zoff, Sepp Maier e Ricardo Zamora, e abaixo apenas de Lev Yashin.
Mas, na opinião da vítima da maior defesa da história, Banks alcançou patamares ainda mais altos. "Talvez ele tenha sido o melhor jogador de defesa da história", comentou Pelé.




