Futebol e praia são dois dos maiores passatempos do brasileiro, mas para os moradores de Minas Gerais a segunda opção passa por uma longa viagem a um dos estados vizinhos. Com isso, ser apaixonado pelo futebol acaba sendo algo praticamente constitucional para a essência mineira. Na capital Belo Horizonte, a lealdade fica amplamente divida entre dois gigantes: Atlético Mineiro e Cruzeiro.

O encontro entre os dois clubes carrega uma rica tradição e é um dos maiores clássicos brasileiros. Quando o preto-e-branco do Galo e o azul da Raposa ficam lado a lado, levam consigo duas das torcidas mais apaixonadas do país.

Nasce a rivalidade
Durante a primeira metade do século 20, o maior clássico de Minas Gerais era disputado entre Atlético e América. O Galo venceu o primeiro campeonato estadual, em 1915, enquanto o América conquistou as dez edições seguintes, de 1916 e 1925. O Cruzeiro, que na época se chamava Palestra Itália e contava com os inesquecíveis irmãos Fantoni, chegou a conseguir o seu primeiro tricampeonato mineiro em 1928, 29 e 30, mas foi apenas a partir dos anos 50 que a rivalidade com o Atlético começou a se firmar como a mais forte do estado.

O fato de terem de dividir a taça do estadual de 1956 só fez crescer essa rivalidade, que explodiu nove anos depois com a construção do majestoso Mineirão. A inauguração do estádio aconteceu no dia 5 de setembro de 1965, com a partida entre a seleção mineira e o River Plate da Argentina. Apesar de apoiarem a mesma equipe, atleticanos e cruzeirenses torciam para que fosse um dos seus jogadores que marcasse o primeiro gol no novo templo do futebol mineiro — honra que acabou indo para o atleticano Buglê aos dois minutos do segundo tempo, gol que garantiu a vitória por 1 a 0.

Domínio azul
O surgimento da Era Mineirão coincidiu com um período de domínio azul. Com uma equipe altamente talentosa, composta por nomes como Raul, Piazza, Dirceu Lopes, Natal e Tostão, a Raposa levou cinco títulos consecutivos de 1965 a 1969 e teve o Galo como vice-campeão em todos eles.

A terceira dessas disputas foi especialmente difícil para os atleticanos. O Galo havia segurado dois empates contra os defensores do título durante a campanha, um deles sem gols e o outro em 3 a 3. Mas a final acabou sendo controlada pelo Cruzeiro, que venceu por 3 a 1 e 3 a 0 os dois primeiros jogos da melhor de três e saiu campeão. "Perder uma final nunca é bom, mas perder para o maior rival realmente machuca", admitiu após o jogo o então técnico do Atlético, o paraguaio Fleitas Solich.

O Galo contra-ataca
Na metade dos anos 70 foi a vez de o Atlético montar um elenco impressionante. Nomes como João Leite, Luizinho, Toninho Cerezo, Paulo Isidoro, Nelinho, Éder e principalmente o inigualável centroavante Reinaldo fizeram do Galo uma das forças mais temidas no Brasil. Durante esse período, os atleticanos superaram os rivais seguidas vezes em confrontos diretos e conquistaram 11 títulos estaduais em 14 edições do torneio.

Depois da virada do século, o Cruzeiro teve melhor desempenho no Campeonato Mineiro, vencendo cinco vezes contra duas do Atlético. Por outro lado, o Galo detém 39 conquistas na história do regional, quatro a mais que os rivais.