Marselha é a casa de cerca de 830 mil pessoas, dentre as quais praticamente todas se diriam orgulhosas torcedoras do renomado clube de futebol da cidade. Em qualquer lugar que se esteja no dia seguinte a uma partida — seja em um café à beira-mar, no escritório, em uma feira livre ou utilizando o transporte público —, o assunto será apenas um: como os jogadores de branco e azul celeste se saíram na noite anterior.

Por mais de um século, o Olympique de Marselha vem causando a euforia da massa após as vitórias e a irritação generalizada no caso de derrota. Poucos times inspiram tão grande paixão, que chegou a níveis incomparáveis quando a equipe conquistou a Europa no ano de 1993. Dando sequência à análise dos clubes clássicos pelo mundo, o FIFA.com volta os holofotes para este time do Mediterrâneo que representa a França melhor que qualquer outro no cenário europeu.

Os primeiros passos
Considerado hoje um verdadeiro clube do povo, o Olympique de Marselha deve a sua existência ao aristocrata René Dufaure de Montmirail, que em 1892 fundou o Club Omnisports de Marseille. Cinco anos mais tarde, o nome mudaria para Football Club de Marseille e, em 1899, a fusão com o clube de esgrima L'Épée daria origem ao Olympique de Marseille. Já as cores e o lema adotados à época da fundação seguem absolutos até os dias de hoje. Droit au But, ou "direto ao gol", é a filosofia que ainda se vê estampada no escudo do time.

Naquele tempo, a palavra football na França era referência para o jogo de rúgbi, já que o esporte bretão era privilégio dos marinheiros ingleses e alemães que aportavam na cidade. Mas esses pioneiros itinerantes logo converteriam os marselheses, dando ao esporte um status quase religioso e levando o Olympique a adotá-lo de vez em 1902.

Rapidamente, o clube se tornou a maior força da cena local, reinando absoluto na liga e dando sinais de que estenderia o sucesso para o âmbito nacional. Contudo, apesar de todos os esforços, o time acabou sucumbindo nas semifinais do Campeonato Francês em quatro oportunidades, entre 1904 e 1908, e ainda teve de assistir ao tricampeonato do rival Stade Helvétique Marseillais, entre 1909 e 1913, antes que a Primeira Guerra Mundial interrompesse todas as atividades esportivas no país.

O surgimento de um mito
Com o fim da guerra, a Copa da França foi introduzida, dando ao OM mais uma chance de ganhar reconhecimento no cenário nacional. O clube foi o primeiro de fora de Paris a levantar a taça, em 1924, repetindo o feito em 1926 e 1927. As conquistas marcaram a era dourada de um time impulsionado por Édouard Crut e Jean Boy, que levaria também o título daquela que ainda era uma liga amadora no ano de 1929. Três anos mais tarde, o Olympique de Marselha viraria um dos membros fundadores da primeira liga profissional do país, chegando ao seu primeiro triunfo em 1937, dois anos depois da sua quarta conquista na Copa da França e um ano antes da quinta.

A década seguinte trouxe ainda mais honrarias, com a sexta Copa da França em 1943 e o segundo título do Campeonato Francês em 1948, onze anos depois do primeiro. Enquanto isso, nas arquibancadas, a torcida buscava espaço no coração para o popular meio-campista Roger Scotti, que entrou para a história do Olympique de Marselha ao disputar 406 partidas com o seu amado time, recorde até hoje. Quem também deixou a sua marca foi o artilheiro Emmanuel Aznar, que marcou 56 gols em 38 partidas, sendo nove deles na inesquecível goleada de 20 a 2 sobre o Avignon em 1942.

Mas a decepção não demoraria a dar as caras. O clube passou duas décadas sem conquistar um título sequer e, em 1959, foi rebaixado pela primeira vez, caindo novamente em 1963, depois de passar apenas uma temporada junto à elite. Apesar disso, os anos 50 ficaram marcados também pelo maior artilheiro da história do OM, Gunnar Andersson, que anotou 186 gols e hoje é considerado um dos maiores jogadores a terem vestido o manto azul-celeste.

Mas a produtividade do atacante sueco não foi capaz de evitar o mau momento. Entre os pontos baixos daquele período, podemos citar a derrota de 10 a 3 diante do Saint-Étienne em Marselha, no ano de 1952, uma decepcionante eliminação na Copa da França pelas mãos de um pequeno clube da segunda divisão, em 1959, e a fúria seguida de indiferença dos torcedores, que eram apenas 434 na arquibancada quando o time enfrentou o Forbach em 1965.

Alguns sinais de recuperação começaram a surgir quando Marcel Leclerc assumiu a presidência. Com o clube ainda na segunda divisão, o novo presidente apontou Mario Zatelli como técnico e lentamente fez com que o time voltasse a brilhar. Em 1969, o sétimo título da Copa da França garantiu à dupla o amor dos exigentes torcedores, que dois anos depois puderam se deliciar também com a conquista da liga graças à surpreendente dupla de ataque formada pelo croata Josip Skoblar e o sueco Roger Magnussom. A combinação mágica seguiu rendendo frutos no ano seguinte, com o Olympique de Marselha chegando ao seu primeiro bicampeonato seguido e adicionando a oitava Copa da França ao currículo.

Nesse ritmo, era hora de garantir lugar entre os grandes da Europa. Mas as primeiras investidas do clube foram frustradas, primeiro diante do Ajax de Johan Cruyff e, no ano seguinte, contra a Juventus de Turim. Enquanto isso, quem assumia o posto de maior força dentro do território francês era o Saint-Étienne, restando ao time de Marselha se contentar com mais um título da Copa da França, celebrado em 1976.

Novos e antigos ídolos
O inimaginável aconteceria em 1980, quando o forte elenco que contava com alguns jogadores de seleção, entre eles Marius Trésor, Anders Linderoth, Marc Berdoll e Didier Six, não conseguiria evitar uma nova queda. Por outro lado, o susto se tornou um divisor de águas na história do clube, já que acabou abrindo espaço para uma nova geração de jogadores locais. Apelidado de Les Minots ("os garotos"), esse jovem plantel voltaria à elite em 1984 com a ajuda de Eric Di Meco, zagueiro de 20 anos que alguns anos depois teria participação direta na maior conquista do clube.

A chegada de Bernard Tapie como presidente em 1986 lembrou a época de Leclerc, com grandes craques chegando ao Estádio Vélodrome e o surgimento de uma nova fase de sucesso. Karl-Heinz Forster, Alain Giresse, Jean-Pierre Papin, Chris Waddle, Enzo Francescoli, Abedi Pelé, Didier Deschamps, Basile Boli, Marcel Desailly, Rudi Völler e Eric Cantona foram apenas alguns dos nomes que ajudaram a recolocar o Olympique de Marselha à frente do futebol francês no período. Também foram eles que criaram o alicerce para a conquista da Europa, ajudados pelo comando de experientes técnicos como Franz Beckenbauer e Raymond Goethals.

De 1989 a 1993, o clube chegou ao pentacampeonato nacional de forma consecutiva, recorde da época, além de faturar mais uma edição da Copa da França em 1989. O ápice do período veio com o título da Liga dos Campeões da UEFA, no dia 26 de maio de 1993. Após derrotas nas finais das duas edições anteriores, a vitória de 1 a 0 sobre o Milan em Munique fez do Olympique de Marselha o primeiro e até hoje único clube francês a levantar a taça do principal torneio europeu. A alegria que tomou conta da cidade ao sul da França foi compartilhada pelo resto do país, mas logo seria interrompida. Um escândalo de corrupção em torno de um jogo contra o Valenciennes alguns dias antes da final europeia acabou tirando do time de Marselha o título nacional de 1993 e fez com que fosse rebaixado em 1994.

A situação na atualidade
O Olympique de Marselha não conseguiu levantar nenhuma taça desde a vitoriosa odisseia europeia, totalizando uma seca de 15 anos que certamente representam uma eternidade para os torcedores mais devotos. O time vem se mantendo na primeira divisão desde a temporada 1996/97, quando garantiu o retorno, e chegou inclusive a flertar com novas conquistas continentais nesse espaço de tempo, ficando com o vice-campeonato da Copa da UEFA em 1999 e 2004. E nomes como Laurent Blanc, Fabrizio Ravanelli, Christophe Dugarry, Franck Ribéry e Didier Drogba, apesar de terem deixado lembranças maravilhosas para a torcida, acabaram saindo do clube sem jamais terem erguido troféus.

O atual elenco mescla juventude e experiência, como se pode observar pelo desempenho do goleiro Steve Mandanda, do zagueiro Taye Taiwo e do centroavante Hatem Ben Arfa. Esses jovens talentos, aliados à habilidade de Djibril Cissé, Mamadou Niang e Lorik Cana, sabem muito bem da responsabilidade de somar mais um título à gloriosa história do clube. Já o técnico belga Eric Gerets, além de dividir o fardo com os atletas, dá aos torcedores mais supersticiosos um motivo a mais para sonhar. Isso porque o último treinador vindo da Bélgica foi justamente aquele que levou o Olympique de Marselha ao apogeu continental.

O estádio
Já faz muito tempo desde a última vez em que alguém deu voltas no Estádio Vélodrome em uma bicicleta, mas o famoso nome permanece. Inaugurado em junho de 1937, o sucessor do Estádio de l'Huveaune sediava competições de ciclismo até os anos 1980, quando a pista foi removida para dar mais espaço à torcida. Por lá desfilaram grandes nomes do futebol mundial, tanto em jogos do time da casa quanto nas edições de 1938 e 1998 da Copa do Mundo da FIFA. Com capacidade para 60 mil espectadores, que lotam as arquibancadas com frequência, o estádio ecoa os cânticos de uma das mais vibrantes torcidas da França.