O FC Porto foi, e sempre será, um clube do Norte de Portugal. Representa na perfeição o orgulho, a capacidade de trabalho e a tenacidade das gentes nortenhas, é verdade, mas há muito tempo que deixou de ser um emblema regional e de ambições limitadas. Pelo contrário. O Dragão já conquistou Portugal, a Europa e o Mundo.

Durante anos e anos, dizia-se que mal o autocarro da equipa atravessava a Ponta da Arrábida – que liga as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia – rumo a Sul, o FC Porto começava a perder. Durante décadas, só a espaços é que os azuis e brancos se conseguiam intrometer com Benfica e Sporting na luta pelo protagonismo no futebol português, mas essa realidade deu uma volta de 180 graus.

Basta ver os números: até 1977/78, época em que acabou com um jejum de títulos que durava há 18 temporadas, os adeptos portistas só tinham celebrado cinco títulos de campeão português. Desde então, e em 35 campeonatos, o FC Porto ganhou qualquer coisa como 22 troféus, bem mais do que todos os seus adversários juntos.

E se os números são o espelho da competitividade e vontade de vencer do emblema azul e branco, os nomes e as memórias são o maior património de um clube que celebra, este sábado, 120 anos de vida e que se continua a reinventar e a crescer todos os dias.

Um pouco de história...
O FC Porto foi fundado no dia 28 de setembro de 1893 e, considerando a estreita relação entre a história da cidade e o vinho, não surpreende que o fundador da equipa tenha sido um importante comerciante do ramo vinícola, Antonio Nicolau de Almeida, que descobriu o futebol durante uma viagem de negócios à Inglaterra.

Contudo, as atividades do clube permaneceram interrompidas durante anos até ganharem novo impulso em 1906, sob a presidência de José Monteiro da Costa, que fez do FC Porto uma agremiação polidesportiva. A sede foi adquirida no ano seguinte, o emblema surgiu em 1910 e as instalações próprias foram inauguradas em 1913.

Apesar de alguns êxitos esporádicos — como a vitória de 3 a 2 sobre o Arsenal em 1948 —, o Porto passou algum tempo à sombra dos grandes de Lisboa. Foi preciso esperar até 1956 para que a equipa participasse na sua primeira competição europeia, contra os espanhóis do Athletic de Bilbao. Contudo, essa história começaria a mudar no final da década de 1970.

Os nomes da mudança
Os arquitetos do novo FC Porto foram o presidente Pinto da Costa (até hoje em funções e o dirigente ainda em atividade com mais títulos a nível mundial) e o técnico José Maria Pedroto, autor da célebre frase da Ponte Arrábida. Juntos, criaram um estilo muito próprio e que continua a dar títulos ao fim de quase quatro décadas.

Mas, claro que os artistas também tiveram um papel fundamental. Um deles, Fernando Gomes, foi melhor marcador da Europa em 1983 e 1985, enquanto outras estrelas começavam a brilhar de azul e branco, como Paulo Futre ou Rabah Madjer, figuras centrais do dia que todos os portistas ainda consideram o início da era moderna do clube.  

O FC Porto chegou à sua primeira final europeia em 1984, que acabaria perdida para a Juventus, mas deu a volta por cima em grande estilo três anos mais tarde. E da forma mais emocionante possível.

O calcanhar eterno
E o dia que tudo mudou foi 27 de maio de 1987. O Bayern de Munique entrava na final da Taça dos Campeões Europeus como claro favorito e mais favorito ficou quando Kogl deu vantagem à equipa alemã na primeira parte. Tudo parecia perdido para os portugueses, mas, na segunda metade, um furacão chamado Paulo Futre, um fora-de-série chamado Madjer e um suplente de luxo chamado Juary mudaram a história do jogo e, quem sabe, do clube.

O golo do empate, esse, nunca ninguém vai esquecer. O toque de calcanhar de Madjer fez parar o tempo em Viena, correu o Mundo provocou uma explosão de alegria sem igual por muitos – e foram mesmo muitos – títulos que o FC Porto tenha conquistado desde então. Claro que ainda faltava a cereja no topo do bolo nesse jogo na Áustria e essa teve sabor brasileiro. Juary, arma secreta em tantos jogos, foi mais uma vez o homem que saltou do banco para dar a volta ao Bayern e consagrar o FC Porto a nível europeu.

Inspirados no triunfo, os portugueses levantaram a Taça Intercontinental e a Supertaça Europeia logo em seguida: uma temporada excepcional para o Dragão, à qual muitas outras se seguiriam. 

O efeito Mourinho
Durante os 16 anos seguintes, o FC Porto continuou a passear a sua superioridade em Portugal, mas os sucessos europeus pareciam ser pouco mais do que uma doce memória. Porém, tudo começou a mudar no início do ano de 2002. Ainda e sempre à frente dos destinos do clube, Pinto da Costa escolheu José Mourinho para orientar a equipa na segunda metade de 2001/02.

E aquele que ainda não era o “special one” mostrou, na apresentação à imprensa, que era tudo menos um treinador comum. “Este ano já não posso prometer, porque estamos a muitos pontos do primeiro lugar, mas garanto que na próxima época vamos ser campeões”, disse.

E foi. Campeão português com um facilidade incrível, vencedor da Taça de Portugal e artesão dos novos sucessos continentais. Em 2002/03, o FC Porto ganhou a Taça UEFA na escaldante final de Sevilha – com temperaturas perto dos 40 graus – frente ao Celtic de Glasgow, por 3-2 após prolongamento. A imagem de Mourinho a correr pela pista de tartan com a medalha na mão correu o Mundo.

“Inesquecível, mas quem ninguém diga irrepetível”, escreveu o treinador na sua primeira biografia, lançada logo após o final da temporada. E Mourinho parecia ter um dedo que adivinhava, já que 2003/04 foi ainda melhor.

De novo campeão português, o treinador conduziu a equipa à vitória na UEFA Champions League, batendo o Mónaco por 3 a 0 na final. Era o fim da era Mourinho no Dragão, já que o treinador saiu após a conquista, mas o clube continuou a somar troféus. Ganhou a última Taça Intercontinental da história (2004), prova que seria substituída pela Copa do Mundo de Clubes da FIFA no ano seguinte.

O herdeiro de Mou
Da equipa técnica de Mourinho fazia parte o jovem André Villas-Boas que, depois, se tornaria ator principal em mais um feito dos Dragões. Em 2010/11, o jovem treinador foi campeão sem derrotas, conquistou a Taça de Portugal e ganhou a UEFA Europa League, batendo os portugueses na final de Dublin, por 1 a 0, com golo de Falcao.

Ao contrário de Mourinho, Villas-Boas não cumpriu uma segunda época na cidade Invicta, mas não foi por isso que o FC Porto deixou de vencer. Mais dois anos, mais dois títulos nacionais e uma ambição que se renova a cada dia que passa. Tão jovem como os 120 anos de vida do clube!