Quando Roberto Carlos se apresentou ao Corinthians no início de 2010, evocou as palavras de seu amigo e novo companheiro de equipe Ronaldo: “Chegou mais um louco para o bando”. O lateral faz menção à auto-referência que a torcida do time adotou recentemente, num período marcado por reviravoltas. Que acompanhar o clube era coisa para desvairados.

A loucura provou estar alastrada na madrugada do dia 31 de agosto para 1º de setembro de 2010, quando cerca de 80 mil pessoas se juntaram no Vale do Anhangabaú para acompanhar o "Show da Virada do Centenário". Por quê? Porque era o aniversário do clube e pronto. Porque havia ídolos históricos no palco, porque até o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, corintiano fanático, participou pessoalmente da homenagem durante o dia. Porque quem gosta do Corinthians não só gosta: é louco pelo Corinthians.

No ano em que completa 100 anos de vida, os jogadores e esses seguidores só querem mesmo que a loucura seja máxima. Ou seja: com mais taças para a já imponente galeria. E, quem sabe, com um ou outro causo a mais para contar.

O nascimento
O Corinthians foi fundado no dia 1º de setembro de 1910 por um grupo de cinco operários do bairro de Bom Retiro, em São Paulo. O nome foi decidido por inspiração de um clube inglês que excursionava pelo país, o Corinthian Football Club. Três anos depois, após o sucesso nos terrões da várzea, o clube disputou seu primeiro campeonato estadual. Em 1914 já conquistou o primeiro Paulistão e, entre 1922 e 1924, assegurou um tricampeonato - o primeiro do estado de São Paulo.

O progresso em campo requeria mais estrutura fora dele. Com sua sede já deslocada para o Parque São Jorge, mais ao Leste na cidade, emplacou outros dois tricampeonatos, entre 1928 e 1930 e entre 1937 e 1939. Nos registros do futebol, contudo, não há um só clube que tenha feito sua história só de conquistas. O que quer dizer, no caso corintiano, que a década de 40 não foi lá muito boa.

O melhor modo para afastar as piadas dos adversários foi responder com títulos. Tanto melhor se com um troféu inédito – o do Torneio Rio-São Paulo de 1950, vencido pelo time histórico que tinha Baltazar, Carbone, Luisinho e Cláudio Christovam de Pinho. O segundo Rio-São Paulo veio em 1954, acompanhado de um título paulista especial, não só porque conquistado sobre o rival Palmeiras, mas porque coincidiu com as comemorações do quarto centenário da cidade de São Paulo.

O crescimento
O que nenhum corintiano poderia imaginar é que teria de aguardar por mais 23 anos para voltar a comemorar para valer (sem contar o Rio-São Paulo de 1966 que acabou dividido com os outros três semifinalistas). Uma espera extenuante.

Nem a bombástica contratação de Garrincha nessa mesma temporada adiantou. O jogador, em declínio físico, não conseguiu reerguer o time. A concorrência também não ajudava: estava a pleno vapor o Santos de Pelé. Toda equipe tinha dificuldades para encarar um oponente desses, mas contra o Corinthians a dominação beirou o insuportável: durante 11 anos o “Rei” ficou invicto no clássico. O jejum contra o Santos só foi encerrado em 1968. Mas o título ainda demoraria a vir.

Em 1974, o time foi à final contra o arquirrival Palmeiras e acabou novamente derrotado, mesmo contando com nomes como o meia Rivellino, o goleiro Ado e o lateral Zé Maria, integrantes da seleção brasileira campeã do mundo em 1970. O amargo revés gerou protestos da torcida, e nem Rivellino foi poupado. Perseguido, o craque se mudou para o Fluminense – que seria o rival de uma das partidas mais marcantes da história do clube, pela semifinal do Brasileirão de 1976.

Na ocasião, milhares de torcedores se deslocaram de São Paulo para o Rio de Janeiro e protagonizaram a chamada “Invasão Corintiana” no Maracanã. Extraoficialmente, fala-se em até 70 mil fãs do clube presentes no estádio. Deu certo, e a equipe avançou com triunfo nos pênaltis. Na final, porém, caiu diante do Internacional. O fardo só chegaria ao fim no Paulista de 1977, quando a Ponte Preta foi superada com um gol chorado, após bate-rebate na área, do “Pé de Anjo” Basílio.

O presente
O Corinthians jamais ficaria tanto tempo sem conquistas outra vez. Nos últimos 30 anos, escalou craques como Sócrates, Casagrande e Zenon – três dos integrantes da “Democracia Corintiana”, movimento histórico que coincidiu com a abertura política do país –, além de Neto, Marcelinho Carioca e Carlos Tévez. O clube acumulou troféus, mas sem jamais se esquecer da determinação de que precisou nos tempos mais difíceis.

Nenhuma dessas façanhas se equipararia, no entanto, à taça erguida na Copa do Mundo de Clubes da FIFA Brasil 2000. Diante de rivais como Real Madrid, Manchester United e o Vasco de Romário e Edmundo, o “Timão” prevaleceu ao ganhar o título na decisão por pênaltis contra os cariocas, no Maracanã.

A década teve ainda o título brasileiro de 2005, que coroou o argentino Tévez, mas não foi marcada apenas por festejos. Em 2007, em desarranjo técnico e político, o Corinthians acabou rebaixado à segunda divisão nacional, tendo novamente de encarar as provocações dos adversários. O que não durou muito dessa vez. Logo no ano seguinte, a equipe foi campeã da Série B e voltou com tudo à elite em 2009 para ganhar novamente o Paulistão e a Copa do Brasil – o que foi ainda mais empolgante pela presença de Ronaldo no comando do ataque.

O Fenômeno ainda não tinha certeza sobre a continuidade de sua carreira, devido às seguidas lesões. No final, foram os zagueiros que pagaram a conta - e continuaram pagando num círculo de sucesso que se estendeu até depois da aposentadoria do craque, no início de 2011, com a formação de uma equipe regular que levou o Timão a seu quinto título brasileiro e, principalmente, ao fim daquilo que era mais do que um jejum: era uma obsessão. Em 2012, sob o comando de Tite, com gols do herói Emerson Sheik, o time bateu o Boca Juniors e chegou à sua primeira conquista da Copa Libertadores. E então? Então, o mundo conheceu melhor o fanatismo dessa torcida: uma multidão viajou ao Japão para transformar os estádios da Copa do Mundo de Clubes da FIFA numa maré alvinegra. Empurrado pela massa, o Corinthians bateu o Chelsea na decisão e coroou um ano de 2012 mágico.

O estádio
Apesar do carinho com que a torcida se refere à Fazendinha, como é conhecido o Estádio Alfredo Schürig, o lugar hoje abriga apenas treinos do time profissional, que manda a maioria de seus jogos no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu. A atual diretoria recentemente anunciou o projeto para construção de uma arena moderna em Itaquera - reduto histórico do corintianismo - onde possa receber a abertura da Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014 e acolher regularmente uma boa porção de seu bando. De torcedores ou loucos.