Clube mais rico da Bélgica, adorado por seus torcedores e odiado pelos outros, o Royal Sporting Club Anderlecht é um gigante no seu reino. Foi campeão 29 vezes da liga nacional, ergueu nove taças da Copa da Bélgica e não tem rivais no país em termos de poderio econômico e galeria de títulos.
Além das conquistas nacionais, o time venceu três copas continentais entre 1976 e 1983, período glorioso que inseriu o seu nome no livro de ouro do futebol europeu. E é graças a esse histórico que a equipe continua sendo respeitada no Velho Continente, apesar das recentes dificuldades enfrentadas. Mesmo nos seus próprios domínios, o Anderlecht já não é mais tão soberano, tendo sido ameaçado por seus rivais históricos, Standard de Liège e Club Brugge.
O nascimento de uma instituição
No dia 27 de maio de 1908, por iniciativa de Charles Roos, uma dúzia de entusiastas do futebol reunidos no Café Concordia decidiram fundar um clube "investido da missão de desenvolver, no município de Anderlecht, os esportes atléticos em geral e o futebol em particular." Assim nasceu o Sporting Club Anderlechtois, que foi integrado à terceira divisão regional para ser imediatamente promovido, ao terminar o campeonato atrás de Union Saint-Gilloise e Uccle Sport, os gigantes da época.
Os atacantes Gaston Versé e Jef Bruggeman eram então os grandes astros, os primeiros de um clube elevado à condição de "Sociedade Real" em 20 de junho de 1933 por seus 25 anos de existência. Doze anos antes, o Anderlecht havia chegado à elite do futebol belga pela primeira vez e, depois de quatro idas e vindas entre a primeira e a segunda divisão, de 1921 a 1935, a equipe finalmente se estabilizou no nível mais alto. Nessa mesma época, o clube adquiriu status jurídico de sociedade cooperativa e construiu uma grande arquibancada no campo onde mandava os seus jogos.
Foi preciso esperar até 1947 para comemorar o primeiro título nacional. Em seguida, a chegada do técnico britânico Ernest Smith rendeu duas novas vitórias no Campeonato Belga, um torneio em que o Anderlecht viria a reinar praticamente absoluto de 1949 a 1974. Foram nada menos que 15 títulos conquistados, com direito a um pentacampeonato consecutivo entre 1964 e 1968, recorde jamais igualado, e um tri. Entre os técnicos que contribuíram para esse período tão vitorioso está o corso Pierre Sinibaldi, que comandou o time de 1960 a 1966 e posteriormente entre 1969 e 1971 e foi um digno sucessor dos ingleses Smith e Bill Gormlie.
O surgimento de um mito
Em 1963, a Bélgica conheceu as suas primeiras divisões comunitárias com a instauração da fronteira linguística. Para o Anderlecht aquele também foi um ano histórico, marcado por um recorde de público de 64.073 pessoas em partida contra o FC Dundee e pela primeira classificação para a Copa dos Campeões da Europa. Nessa competição, os belgas eliminaram o Real Madrid, oito anos após a sua estreia oficial no cenário continental, em 1955, contra o Vörös Lobogo da Hungria. Era o início de um longo caso de amor entre o Anderlecht e a Europa.
Por incrível que possa parecer, foi justamente no momento em que o seu domínio na liga nacional foi colocado em xeque (nenhum título entre 1974 e 1981) que o clube escreveu as páginas mais bonitas da sua história. Em 1976 e 1978, o time dirigido pelo jovem Raymond Goethals venceu a Recopa Europeia com vitórias sobre o West Ham e o Áustria Viena respectivamente. Se não fosse a derrota na final de 1977 contra o Hamburgo, o Anderlecht teria conquistado um tricampeonato histórico. Após a saída de Paul Van Himst, o holandês Robbie Rensenbrink assumiu a condição de astro do time. Foi com ele que o clube ocupou de vez o seu espaço na elite do continente ao erguer a Supercopa Europeia contra os míticos Bayern de Munique, em 1976, e Liverpool, em 1978.
O roteiro se repetiu em 1983 e 1984, desta vez na Copa da UEFA. Van Himst dirigia o time, enquanto Enzo Scifo e Franky Vercauteren encantavam os súditos do Parc Astrid. Após derrotar o Benfica, o colosso belga sucumbiu diante do Tottenham na temporada seguinte ao final de um confronto de ida e volta memorável. A sua última final europeia data de 1990 na Recopa.
Nesse meio-tempo, o Anderlecht conquistou um novo tricampeonato belga (1984-85-86). Em 2001, un ano após o seu 25º título nacional, a equipe da dupla de artilheiros Jan Koller e Tomasz Radzinski terminou em primeiro lugar no seu grupo da Liga dos Campeões, à frente do Manchester United, antes de cair nas oitavas de final diante da Lazio. Desde então, as campanhas europeias perderam o brilho e o prestígio do clube caiu, apesar das cinco participações seguidas na Liga e dos três novos triunfos no Campeonato Belga.
O momento atual
A vitória na Copa da Bélgica, que coincidiu com o centenário do clube em maio de 2008, alguns meses após a eliminação para o Bordeaux na Copa da UEFA, não foi capaz de ocultar as dificuldades do novo Anderlecht, reestruturado a partir de 2006 pelo presidente Roger Vanden Stock, filho do saudoso Constant. Para piorar, a nova potência do futebol belga é o eterno rival Standard. Como prova a triste eliminação diante do BATE Borisov na fase preliminar da Liga dos Campeões, o Anderecht já não reina mais, apesar das numerosas contratações efetuadas graças a um orçamento sem igual na Bélgica.
Desde novembro de 2007, Ariel Jacobs dirige um time em que os destaques são Mbark Boussoufa, Jan Polak, Lucas Biglia, Silvio Proto e principalmente Romelu Lukaku, a nova joia que tem atraído a cobiça de grandes clubes europeus desde as suas primeiras atuações com a camisa malva. Jacobs sucedeu Franky Vercauteren, destituído mais pelo futebol sem brilho da equipe do que pelos resultados.
O estádio
Construído em várias fases entre 1983 e 1991 sobre as cinzas do antigo Emile Versé, o estádio Constant Vanden Stock (26.361 lugares), conhecido também como Parc Astrid, recebeu o primeiro prêmio de arquitetura e esporte concedido pelo Comitê Olímpico Internacional.
Conjugando futebol com o mundo dos negócios, a instalação abriga camarotes, salas de recepção, salões de conferência e um restaurante gastronômico. Embora tenha suscitado inveja tanto na Bélgica quanto na Europa no momento da sua inauguração, o estádio envelheceu, e bastante mal. Ele já não satisfaz os dirigentes do Anderlecht, que sonham com uma nova arena multifuncional para 50 mil espectadores na região de Bruxelas.

