Vasco da Gama foi um valente navegador português da Era dos Descobrimentos que desbravou a rota oceânica entre a Europa e a Índia e pavimentou o caminho para que o pupilo Pedro Álvares Cabral chegasse ao Brasil. Fazendo jus à carreira do explorador que lhe emprestou o nome, o clube carioca também se destacou por um forte pioneirismo, derrubando barreiras raciais no Brasil do início do século 20 e tornando-se o primeiro campeão sul-americano da história.

Nascido em 1898 como um clube de regatas, o Vasco iniciou a sua longa trajetória no futebol apenas 17 anos depois. Hoje, é um dos times mais prestigiados do país, com uma história de conquistas dentro e fora de campo que o FIFA.com narra a seguir.

Raízes portuguesas
O remo dominava todas as atenções no ocaso do século 19 no Rio de Janeiro. Naquela época, quatro jovens remadores (Henrique Ferreira Monteiro, Luis Antonio Rodrigues, José Alexandre D'Avelar Rodrigues e Manoel Teixeira de Souza Junior) tinham de atravessar a Baía de Guanabara rumo a Niterói para praticarem o seu esporte favorito. Cansado dessa rotina, o grupo decidiu formar o próprio clube. Em 21 de agosto de 1898, para celebrar o quarto centenário da viagem pioneira de Vasco da Gama à Índia, o quarteto português se uniu a outros 58 imigrantes e fundou o Clube de Regatas Vasco da Gama.

O futebol passou por uma explosão de popularidade no início do século 20 no Rio de Janeiro, e o Vasco acabou, inevitavelmente, se interessando em ecoar nos gramados o sucesso que já experimentava nas águas. Em 26 de novembro de 1915, após uma fusão com o Lusitânia, nascia o departamento de futebol do clube.

Vestindo a Cruz da Ordem de Cristo no uniforme para simbolizar a herança portuguesa, a equipe estreou com uma derrota por 10 a 1 em maio do ano seguinte. O primeiro jogador a marcar um gol pelo Vasco foi Adão Antônio Brandão, que havia sido expulso de Portugal pelo pai como castigo pela falta de interesse nos estudos. O atacante não seria o último rebelde a ganhar notoriedade no clube.

Após enfrentar dificuldades nas primeiras temporadas, o Vasco conquistou em 1923 o seu primeiro título carioca. O regime de treinamento rigoroso e sem precedentes do técnico uruguaio Ramón Platero deu resultado, e 11 das 12 vitórias conquistadas durante a campanha campeã se deram graças aos gols marcados no segundo tempo.

Mas a alegria durou pouco. Contrários à presença de jogadores negros e pobres na equipe do Vasco, os principais adversários decidiram criar um campeonato à parte. Sem a presença dos poderosos América, Bangu, Botafogo, Flamengo e Fluminense, os vascaínos navegaram em águas tranquilas rumo a mais um título do Campeonato Carioca, vencendo todas as 14 partidas, um recorde que permanece até os dias de hoje.

Felizmente, a grande batalha do clube contra o racismo terminou em triunfo: no ano seguinte, a elite do futebol do Rio estava reunida novamente na mesma competição.

O Expresso da Vitória
O Vasco voltou a vencer o Campeonato Carioca em 1929, 1934 e 1936, antes de entrar na grande era de supremacia da sua história. Entre 1945 e 1952, o clube acrescentou mais cinco títulos estaduais à coleção e ainda conquistou o Campeonato Sul-Americano de Campeões, uma competição de pontos corridos e turno único que só foi disputada em 1948 e é reconhecida pela CONMEBOL como a precursora da Copa Libertadores. A equipe comandada pelo técnico Flávio Costa terminou invicta, feito que nem mesmo o River Plate de Alfredo Di Stéfano e o Nacional de Atilio García foram capazes de impedir.

O Expresso da Vitória, como o time ficou conhecido naquela época, era uma devastadora máquina de artilharia que contava com o apoio de um setor defensivo imperturbável. O goleiro Barbosa e o zagueiro Ely simbolizavam os pilares de resistência, enquanto Maneca e Danilo forneciam a munição com a qual Ipojucan, Chico e o fantástico Ademir de Menezes detonavam os adversários.

O ano de 1952 pode ter marcado o fim do Expresso da Vitória, mas o Vasco rapidamente encontrou novos ídolos: Bellini, Orlando e Vavá, que mais tarde conquistariam com a seleção o título da Copa do Mundo da FIFA 1958. Foi graças ao trio que o clube faturou os estaduais de 1956 e 1958, este último após uma vitória sobre o arquirrival Flamengo no eletrizante torneio de desempate.

Depois daquela conquista, o Time da Virada teve de esperar até 1970 para retornar ao lugar mais alto do pódio carioca, mas foi no ano seguinte que um jovem e talentoso atacante surgiu para encher os torcedores de esperança. Roberto Dinamite levou o time ao título nacional de 1974 e a mais cinco taças estaduais, balançando as redes 698 vezes pelo Vasco até se aposentar em 1993. Até hoje, ele é o maior artilheiro do Campeonato Brasileiro, com um total de 190 gols marcados, e do Carioca, em que anotou 279.

A equipe cruzmaltina voltou a vencer o Brasileirão em 1989 e 1997, com Edmundo no auge da carreira, e ainda conquistou a Copa Libertadores em 1998, que lhe deu direito de disputar a primeira edição do Campeonato Mundial de Clubes da FIFA, sediado no Brasil, em 2000. Liderado por Romário e Edmundo em grande forma, o time derrotou o Manchester United por 3 a 1 e seguiu até a final, quando acabou perdendo nos pênaltis para o Corinthians.

O formidável quarteto ofensivo formado por Juninho Pernambucano, Juninho Paulista, Euller e Romário conduziu o Vasco ao tetracampeonato brasileiro em 2000, mas, desde então, o clube vem amargando um considerável jejum de títulos, tendo vencido o Campeonato Carioca somente em 2003. O Cruzmaltino foi rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro em 2008, mas conseguiu retornar em grande estilo já no ano seguinte.

O estádio
São Januário foi inaugurado como o maior estádio da América do Sul em 1927, distinção perdida em 1940, quando o Pacaembu abriu os portões em São Paulo. Nos seus primeiros anos, o recinto abrigou vários jogos da seleção brasileira. O local traz boas lembranças aos vascaínos, que viram o time bater o Barcelona do Equador por 2 a 0 na final da Copa Libertadores de 1998, que depois veio a ganhar com o placar agregado de 4 a 1. Além disso, a casa cruzmaltina serviu de palco para alguns dos melhores jogadores da história do futebol brasileiro, como Fausto, Danilo, Rubens, Romário, Edmundo e o talentoso Dener, que morreu em um acidente de carro em 1994, quando tinha apenas 23 anos.

Foi em São Januário também que, mais recentemente, Romário marcou o milésimo gol da carreira, de acordo com a sua contagem pessoal. De acordo com um estudo de 2002, o Travel Channel apontou São Januário como um dos sete melhores estádios do mundo para se assistir a um jogo de futebol, ao lado de templos consagrados como o Camp Nou, em Barcelona, e o San Siro, em Milão.