
A paixão e o empenho foram marcas registradas de Paul Elliot como jogador, e as mesmas características permanecem em destaque na batalha que ele enfrenta contra a discriminação. O ex-zagueiro do Chelsea, que também defendeu outros grandes clubes como Celtic e Pisa e encerrou a carreira por motivos de lesão, é atualmente um dos nomes mais eloquentes da causa contra o racismo.
Hoje aos 48 anos, e com um trabalho reconhecido e premiado, Elliot é conselheiro do governo britânico na Comissão de Direitos Humanos e de Igualdade. E ele fala por experiência própria, já que precisou enfrentar o racismo em cada um dos três países onde jogou. Confiante, acredita que um "progresso gigantesco" foi alcançado desde que abandonou os gramados e afirma que o futebol foi e continua sendo uma ferramenta vital para acabar com uma das piores pragas que afligem a sociedade.
Em entrevista ao FIFA.com, Elliot salienta que novos desafios continuam a surgir e destaca a complacência como o pior inimigo na batalha permanente contra a discriminação.
FIFA.com: Paul, você participa incansavelmente de uma campanha contra o racismo desde que pendurou as chuteiras em 1994. Quais vêm sendo as maiores dificuldades desse trabalho, e qual foi o progresso já alcançado na sua opinião?
Paul Elliott: O trabalho vem sendo extremamente gratificante. Eu sabia que tinha a responsabilidade de usar a minha própria experiência em prol de uma mudança real, significativa e sustentável, e agora percebo que realmente as coisas melhoraram bastante. Houve um progresso enorme. Dito isso, ainda há muitos desafios à nossa frente e temos de nos manter atentos.
Com a experiência de quem sofreu com o racismo na Itália, na Escócia e na Inglaterra, o que você acha que é necessário fazer para eliminar tais atos do futebol?
Apesar de a cultura dos torcedores ser diferente em cada um desses países, percebi que o ponto central ainda era essencialmente o mesmo. É apenas uma questão de educação. Sempre digo que há sete bilhões de pessoas neste mundo e que cada um de nós nasce livre de discriminação e de preconceito. São as influências dos que estão ao nosso redor que fazem as pessoas se comportarem de um modo discriminatório e inaceitável. E, embora eu veja que esse tipo de comportamento se manifesta dentro do próprio futebol, também me dei conta de que o esporte, combinado com educação e exemplos positivos, é o melhor meio de causar uma mudança real.
Você concorda com a afirmação de que o que torna o futebol uma ferramenta tão poderosa é a universalidade do esporte e o fato de que dentro das quatro linhas todos são iguais?
Com toda a certeza. Se você coloca uma bola de futebol no chão, sejam brancos ou negros, cristãos ou muçulmanos, homossexuais ou heterossexuais, todos se unem para jogar e esquecem os preconceitos. Esse é o poder do futebol. Tenho uma satisfação enorme ao afirmar que hoje o futebol é mais inclusivo do que nunca. Está servindo de exemplo, mas nem sempre foi assim. O futebol já ajudou a superar muitas barreiras, e tenho certeza de que será ainda mais importante para enfrentarmos os próximos desafios.
O racismo no futebol vem sendo um tema polêmico nesta temporada, particularmente na Inglaterra. Embora os incidentes que se tornaram manchetes tenham sido obviamente desalentadores, você acha que o debate gerado por tais eventos trará algum benefício no longo prazo?
Acredito que sim. Acima de qualquer coisa, isso destaca o fato de que, embora já tenhamos dado passos importantes, ainda há muitos desafios no século XXI com os quais temos de lidar. O pior que poderia ter acontecido seria a complacência com o racismo, e isso seria perigoso. Mas o que aconteceu nesta temporada mostrou que precisamos atacar o problema com o mesmo vigor que demonstramos anteriormente.
Qual é a sua opinião sobre a contribuição da FIFA na luta contra o racismo?
A FIFA faz um ótimo trabalho nesta área. Certo, todos sabem que houve comentários inapropriados recentemente, mas isso não diminui o fato de que a FIFA e o Sr. Blatter têm realizado um trabalho excelente, particularmente na África. Na verdade, já firmei parcerias com a FIFA no passado, principalmente com Federico Addiechi e Christian Stamm, e eles são pessoas maravilhosas. Tenho grande consideração e respeito por eles e pelo trabalho que fazem. Quando se fala em liderança, o trabalho da FIFA em relação à responsabilidade empresarial e social, sob o comando de Addiechi e Stamm, é o caminho a seguir.
Qual será o próximo desafio para combater a discriminação no futebol?
A homofobia é um grande desafio. Ela precisa ser combatida da mesma forma como tem sido com o racismo. E ainda há o que eu chamo de discriminação institucional no futebol. Estamos promovendo no momento uma campanha intitulada Fair Share (Cota Justa), a fim de garantir uma melhor representação de mulheres e de minorias nas diretorias, comitês, conselhos e até mesmo comissões técnicas. Estamos falando aqui em garantir igualdade de oportunidades. É um grande desafio para nós, e estou animado com a chance de levar isso adiante.