
Wynton Rufer é um dos maiores nomes do futebol neozelandês. O ex-atacante nascido em Wellington foi eleito o melhor jogador da Oceania no século XX pelos muitos gols que marcou por clubes e pelo seu país. Com menos de 20 anos, ajudou a Nova Zelândia a conquistar classificação inesperada à Copa do Mundo da FIFA em 1982. Em seguida, construiu uma carreira respeitável na Suíça, Alemanha, Japão e, finalmente, na sua terra natal. Além disso, a longa passagem de Rufer pelo Werder Bremen, no início da década de 1990, coincide com um dos períodos mais bem-sucedidos da história do time alemão.
Morando atualmente em Auckland, Rufer dirige uma escolinha de futebol de muito sucesso que, não raro, proporciona alívio a jovens oriundos de comunidades desfavorecidas. Descendente de maoris pelo lado materno, o ex-jogador de 48 anos conversou com o FIFA.com sobre as suas experiências de discriminação e explicou o poder privilegiado do futebol no combate ao racismo.
FIFA.com: Você foi discriminado na juventude por ser de origem maori?
Wynton Rufer: Costumavam me chamar de "negrinho" e às vezes as pessoas dizem coisas ofensivas só para tentar diminuir os outros. Eu já queria vencer na vida desde bem pequeno, então me concentrei em outras coisas. Sempre tentei manter uma atitude positiva e olhar para o que é mais importante.
Você se sentia desprezado na época em que o futebol era visto como um esporte de segunda categoria na Nova Zelândia?
Em um certo sentido, éramos como que cidadãos de segunda categoria e não chego a discordar dessa visão, mas não quero fazer estardalhaço com isso. Sempre gostei de transmitir energia positiva e é por isso que agora trabalho com jovens, tentando fazer a diferença nas comunidades locais e ensinando bons valores.
Você enfrentou situações de racismo ou discriminação nos tempos de jogador?
Sem dúvida. Quando estava no futebol europeu com o Werder Bremen houve casos de faixas com mensagens negativas. Na Bundesliga, também, de tempos em tempos os jogadores africanos eram insultados, o que era algo muito baixo e triste de se ver. Tivemos problemas principalmente nos países do leste da Europa, mas isso mudou bastante. Há mais integração na sociedade atual e as coisas mudaram para melhor. A Polônia, por exemplo, teve um jogador nascido na Nigéria (Emmanuel Olisadebe) na Copa de 2002. Estamos em outra era, portanto.
Quando essa forma de racismo volta a acontecer, o que uma pessoa pode fazer, individualmente, para combatê-la?
As pessoas devem criticar o racismo, sejam elas vítimas ou testemunhas. Devemos falar abertamente sobre ele, porque só assim poderemos atacar o problema de forma direta.
O futebol ocupa lugar privilegiado entre os esportes para tomar medidas efetivas?
O futebol desempenha um papel muito importante na sociedade atual por ser o esporte mais popular do mundo. Ele possui um poder de união incomparável, conforme vimos na África do Sul no ano passado, e realmente pode fazer do planeta um lugar melhor. As várias entidades responsáveis têm boas campanhas baseadas nos valores do respeito e da tolerância, o que é bastante positivo.
Você acha que o futebol e a FIFA podem ajudar na luta contra a discriminação?
Tratá-la abertamente em espaços como esta entrevista é importante e faz parte do processo. É importante que os jogadores não tolerem comportamentos nocivos e falem com franqueza, como o Samuel Eto’o fez há alguns anos. Isso é algo que precisamos ensinar aos jovens das nossas comunidades e os jogadores de futebol podem ajudar de maneira significativa, porque são exemplo. Ensinemos as crianças a entenderem esta responsabilidade, que é algo que começa no bairro de cada uma delas. A questão é fazer a diferença nas vidas das pessoas e tranformar o mundo em um lugar melhor. Este é o poder que o futebol tem. Ele consegue unir as pessoas como nenhuma outra coisa. Lealdade, honestidade, amizade, solidariedade, tudo isso são valores que precisam ser promovidos para que possamos combater a discriminação.




