A sede da FIFA recebeu uma visita especial nesta quarta-feira, 28 de agosto: Isha Johansen esteve nas instalações da entidade pela primeira vez. A visita aconteceu pouco mais de três semanas após a eleição dela como presidente da Federação de Futebol de Serra Leoa (SLAFA), uma realização sobre a qual falou com o FIFA.com.

Johansen também relembrou o ano de 2004, quando os seus vários papéis — mãe, esposa, empresária — deixavam-na com muito pouco tempo livre. Foi naquele momento crítico que as questões mais sensíveis (a tristeza pelo sofrimento dos compatriotas e o amor profundo pelo futebol) levaram a mulher de fala mansa, mas de atitude pioneira, a se sacrificar e fazer a diferença.

"Serra Leoa passou por uma guerra civil brutal, que durou 12 anos e deixou várias crianças órfãs por todo o lugar", explica. "O futebol é um ingrediente importante na nossa sociedade, e havia jovens no meu bairro que jogavam futebol o dia inteiro, literalmente por umas 18 horas. Vi que aqueles meninos não tinham onde viver e que, certamente, não tinham comida. Nisso, parei, tive uma conversa com eles e fiz um acordo: se vocês me prometerem que me deixarão colocá-los na escola, trarei algumas bolas e incentivarei que joguem esse esporte que, por sinal, eu amo muito."

"Num piscar de olhos, eles vieram à minha porta e disseram que haviam formado uma equipe, chamada FC Johansen, algo de que não gostei muito. Disse a eles que precisavam arranjar outro nome, mas eles insistiram. Eram rapazes com idades entre dez e 12 anos, e resolvemos colocá-los nas ligas daquela faixa etária. Daquele ponto em diante, foi só crescimento. Num piscar de olhos, eu os estava levando para representar Serra Leoa em torneios internacionais de base em países como a Suécia e a Noruega. Em 2011, disputamos a Copa da Suíça Sub-16 e fomos campeões após derrotarmos o Liverpool."

"Esses garotos têm um grande significado para a juventude de Serra Leoa. Eles mostram que é possível sonhar, realizar esse sonho e ir longe. Agora jogamos a primeira divisão do país, com uma equipe bastante jovem, e os garotos estão muito bem."

Mas Johansen não ficou satisfeita em quebrar barreiras para as crianças e os adultos em Serra Leoa; ela também queria abrir caminhos para as mulheres em todo o mundo. E, aos 48 anos, conquistou o seu objetivo no início deste mês ao ser eleita presidente da SLAFA, sendo assim a segunda mulher atualmente na presidência de uma federação nacional, ao lado de Lydia Nsekera, do Burundi.

"É uma grande conquista", afirma. "É enorme para a minha família também. Eu entrei para a história. No entanto, sempre disse que essa conquista, esse prêmio, é em homenagem a todas as mulheres. Por isso, dedico a minha presidência da Federação de Futebol de Serra Leoa a todas as mulheres do país."

Muito trabalho pela frente
Johansen, no entanto, enfrenta um duro desafio para mudar a sorte do futebol de Serra Leoa, afetado pelo conflito interno que assola o país. A seleção masculina está em 80º lugar no Ranking Mundial da FIFA/Coca-Cola, ao passo que a equipe feminina está em 120º. Além disso, são poucos e distantes entre si os campos de qualidade no país, e os jovens do FC Johansen estão entre as pouquíssimas crianças que têm o luxo de jogar com equipamentos adequados. Contudo, a nova presidente da SLAFA exala um entusiasmo contagiante ao falar das suas prioridades.

"Reestruturação", começa. "Essa área teve muitos problemas no passado, resultado de uma má administração. Então, o processo atual é de total e completa reestruturação da administração, e depois o foco será a formação de jogadores. Em termos de infraestrutura, a FIFA acelerou a implementação de um programa Goal que permitirá ao Comitê de Desenvolvimento reabilitar a instituição técnica existente, a nossa escolinha, que está em estado muito precário."

"Toda federação de futebol e todo presidente buscaria exibir a sua seleção no cenário mundial. Mas, em longo prazo, seria melhor ver o futebol de base alcançar um nível razoável. Vim para o futebol por meio do trabalho de formação, com a minha própria equipe. Gostaria de poder promover e desenvolver o futebol de base em todo o país."

"O futebol feminino também será um dos grandes focos. Acredito que as mulheres de Serra Leoa nunca me perdoarão se eu deixar o cargo sem antes fazer algo para promover o futebol feminino. No longo prazo, gostaria de contar com uma escolinha de futebol feminino para as nossas jovens aprenderem a jogar futebol e estudarem ao mesmo tempo."

"Então, no longo prazo, estes são os objetivos: levar o futebol feminino a um nível razoável e valorizar as categorias de base. A educação será uma grande parte do nosso aprendizado, com futebol e educação combinados. E, quem sabe um dia, poderemos acabar vendo Serra Leoa no centro das atenções mundiais."