Pisacane: "Não sou desse tipo"
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O futebol é o esporte mais belo do mundo e, no entanto, no mundo da bola aparecem com cada vez mais frequência figuras que tentam manchar a beleza desse esporte. Por sorte, ainda existem pessoas que não buscam fórmulas mágicas para obter sucesso e lucro fácil. Ainda que, manipulando o resultado de um jogo, se possa ganhar o que muitos receberiam em um ano inteiro de trabalho, também há aqueles que optam por recusar essas propostas indecentes por amor ao esporte e por um senso de lealdade e respeito com todos os que vivem com paixão a modalidade.

O protagonista desta história é um jovem napolitano que sonha em chegar um dia à Série A do Campeonato Italiano. Seu nome é Fabio Pisacane, zagueiro do Ternana, clube que lidera a primeira divisão da Lega Pro, equivalente à “terceirona” na Itália. "Fabio Piscane tomou uma atitude corajosa conta aqueles que tentam manipular resultados. Parabéns. Tiro o meu chapéu para você e todos os jogadores que têm a coragem de dizer não", afirmou o presidente da FIFA Joseph S. Blatter em sua conta de Twitter.

Foi justamente o defensor, nascido em 1986, quem revelou o escândalo das apostas no futebol da Itália. No início de 2011, ele denunciou ao procurador da Federação Italiana o então diretor esportivo do Ravena, Giorgio Buffone, que o procurou para arranjar o resultado da partida com o Lumezzane, equipe que o jogador defendia à época, em troca de 50 mil euros.

Pisacane, porém, respondeu com um monossílabo tão direto quanto poderoso: “Não”. Resta saber o que o destino reservará a este jovem ao longo de sua carreira, mas uma coisa é certa: Fabio ganhou sua batalha. O defensor demonstrou a todo o país que é alguém diferenciado, um grande homem e uma pessoa honrada. Pisacane não é um herói, mas simplesmente um apaixonado pelo futebol que não quis trair nem enlamear o mundo da bola – seu mundo, esse mundo ao qual pertence desde que era um menino.

“Comecei a jogar quando era pequeno, em um time do bairro”, contou. “De lá, me levaram ao Damiano Promotion, uma importante equipe de base em Nápoles. Então, soube que tinha possibilidades de continuar lutando para alcançar meu sonho, ao ponto de, quatro meses depois, quando tinha 13 anos, ir para o Gênova.”

Pisacane foi subindo pela hierarquia das categorias de base do clube do norte da Itália até estrear na segunda divisão com 18 anos. “Senti uma emoção enorme”, afirmou. “Entrar em campo pelo Gênova na Série B e com aquela idade foi incrível. Lembro-me de tudo como se estivesse vivendo aquilo agora: entrei em um jogo contra o Catanzaro, substituindo o Baldini, que havia se machucado.”

Acompanhe a seguir o restante da entrevista do FIFA.com com o jogador.

Fifa.com: Como acontece com todos os jovens, você foi mandado a outras equipes para amadurecer...
Fabio Pisacane:
Emprestado, joguei no Ravena, na Cremonese e no Lanciano antes de me desligar do Gênova. Então, fui para o Lumezzane, com um contrato dividido com o Chievo, e fiz uma temporada muito boa lá. Por conta disso, o Ancona, da segunda divisão, me contratou. Foi o Laurini, diretor esportivo do clube (atualmente, na Udinese), que insistiu em minha contratação.

Parece o começo de uma carreira que iria longe. No entanto, algo se complicou no caminho.
Joguei 23 partidas como titular na Série B, mas, no fim da temporada, o Ancona declarou falência. Foi assim que retornei ao Lumezzane, na terceira divisão. Continuei treinando ao máximo e fiz uma temporada muito boa. Até que, uma manhã, recebi uma ligação...

A famosa ligação telefônica do então diretor esportivo do Ravena, Giorgio Buffone?
Era a manhã do dia 14 de abril (de 2011). Nunca me esquecerei daquele dia. Depois de muitos anos, voltei a ouvir a voz daquele que havia sido meu diretor esportivo no Ravena, no início de minha carreira. Mas ele não ligou para saber como eu estava. Faltavam três dias para o jogo e ele me oferecia dinheiro em troca de pontos para sua equipe.

Um valor considerável (50 mil euros) para fazer a balança do jogo entre Lumezzane e Ravena pender para o lado de seus adversários...
Eu gelei. Disse ao diretor do Ravena que não era o tipo de pessoa que ele buscava. Quando cheguei ao centro de treinamento, avisei imediatamente da trama ao clube e ao ‘professor’ e decidimos denunciar tudo ao procurador da federação. Aquelas semanas não foram muito fáceis para mim.

Por quê?
Infelizmente, o Ravena e principalmente Buffone tentaram se defender negando tudo e buscando me desacreditar. Naquele momento não havia provas: era a palavra de um jovem jogador contra a de um diretor com 20 anos de experiência nas costas. Passei dias de angústia, com medo de que nem a opinião pública nem a torcida acreditassem em mim. Temia que a verdade nunca fosse conhecida. Preciso agradecer a minha namorada e a minha família por terem ficado sempre a meu lado, mas sobretudo à diretoria do Lumezzane e ao técnico (Davide) Nicola por terem me apoiado em todo momento e me feito entender que não devia me preocupar, porque eu tinha razão e a verdade prevaleceria.

Semanas depois, ocorreu a investigação Last Bet, que revelou o escândalo dos arranjos de partidas.
Em uma manhã de junho, assim que me levantei, li a notícia de que a promotoria pública de Cremona havia prendido várias pessoas por manipulação de resultados. Foi uma liberação. A verdade havia vindo à tona e finalmente todo mundo sabia como era realmente o panorama. Além disso, tiraram sete pontos do Ravena como punição e sancionaram Buffone com três anos de inabilitação. No entanto, até a abertura da investigação pela promotoria pública de Cremona, nem todo mundo via as coisas muito claras.

Agora, muita gente o considera um herói. Como você encara essa situação?
Garanto a você que não me sinto de maneira alguma um herói pelo que fiz. Sou um jovem totalmente normal, que soube se negar a fazer algo que estava muito errado. É verdade, custa muito resistir à tentação. Principalmente nas divisões inferiores, onde não se ganha muito dinheiro, vários jogadores podem sucumbir a isso, como já aconteceu. Agradeço a minha família por ter me transmitido valores como a seriedade e a honradez, porque isso me serviu para não cair na tentação. Tenho certeza, porém, de que nesta vida é preciso perdoar a quem erra, mas por isso mesmo é justo que os culpados paguem pelo que fizeram. Depois, é preciso pensar com humanidade que eles não voltarão a incorrer no mesmo erro e terão uma segunda oportunidade para se reabilitarem.

Agora, todo mundo fala de você, associando seu nome a esse caso. É incômodo que se mencione Pisacane pelo assunto dos arranjos de jogos e não pelo desempenho em campo?
Fico feliz de que as pessoas apreciem meu gesto e meu comportamento, mas confesso que gostaria de ser reconhecido e apreciado também por minha qualidade como atleta. Como não jogo na primeira divisão, não é muita gente que me conhece. Por isso mesmo, acredito que é preciso ir sempre além e chegar ao ponto mais alto para ser valorizado como jogador e não só como pessoa.

Qual sonho ainda resta a Fabio Pisacane?
Meu sonho é o mesmo que levo no coração desde que era garoto: jogar na Série A. Sei que não é fácil, mas ainda sou jovem. Até o momento de pendurar as chuteiras, é o que tentarei com todas minhas forças. Sonhar serve para melhorar e eu não penso em perder a esperança de conseguir isso. Gostaria que chegasse o dia em que eu pudesse dizer: “Consegui, realizei meu sonho!” Com entrega, dedicação ao trabalho e espírito de sacrifício, vou conseguir.