
Quando o presidente da FIFA, Joseph Blatter, homenageou a Federação Palestina de Futebol com o primeiro Prêmio de Desenvolvimento da FIFA, na cerimônia de gala do Jogador do Ano da FIFA 2009, ele explicou que a premiação seria dada "como retribuição ao sucesso da difícil missão de manter o futebol vivo na região".
O prêmio reconheceu que, apesar dos obstáculos para o desenvolvimento do futebol por conta dos conflitos existentes no Oriente Médio — como as restrições para entrar e sair dos territórios da Cisjordânia e Faixa de Gaza, os quais exigem que jogadores, treinadores, dirigentes e todos os cidadãos palestinos solicitem vistos para entrar e sair dessas localidades —, a federação obteve sucesso no desenvolvimento do esporte, apresentando um número crescente de jovens que praticam futebol pelos 16 distritos do país.
Ansiosa para aproveitar o entusiasmo palestino pelo futebol, a FIFA levou o programa Grassroots aos territórios em abril. Para garantir que treinadores de todas as áreas do país pudessem ser beneficiados, os organizadores superaram as dificuldades de movimentação criando três cursos separados nas regiões norte, central e sul da Cisjordânia, além de outro na Faixa de Gaza.
O primeiro dos quatro cursos ocorreu em Nablus, na Cisjordânia, um movimentado centro comercial situado no caminho entre Tel Aviv, capital de Israel, e Amã, capital da Jordânia. A localização fez de Nablus um dos principais alvos do conflito no início da década passada. No entanto, o espectro de violência que manchou a cidade no passado esteve longe do Estádio Municipal durante o curso. Cerca de 130 determinados jovens conduziram, passaram e cabecearam a bola no gramado diante de gritos de incentivo e instruções dos treinadores locais.
Cada programa Grassroots começa trabalhando justamente com esses técnicos, que são instruídos a garantir que as crianças deixem os treinos com um sorriso no rosto. Uma série de atividades padronizadas é utilizada para a realização de festivais com jogos reduzidos, com equipes de quatro ou cinco jogadores, além de exercícios para desenvolver habilidades. O formato dos jogos é adaptado às crianças e permite que elas se envolvam em todo o processo do jogo de futebol. Assim, com o campo menor, elas podem participar mais do jogo, dando mais toques na bola e tendo mais chances de marcar gols.
Paixão Palestina
"O festival é o momento crucial do curso", explica o instrutor da FIFA Jamal Lahrache, um dos oito membros da delegação que dão forte apoio aos jovens treinadores e jogadores na Palestina. "Ele dá a chance de observarmos os novos técnicos e as crianças em ação para que possamos descobrir o que eles aprenderam sobre futebol de base."
A técnica das crianças com a bola é impressionante para a idade e, tanto os experientes treinadores como as famílias presentes, aplaudiram a qualidade do jogo apresentado. "Jogo futebol desde os cinco anos de idade e quero ter a experiência de atuar em um clube", afirma Sami, 11 anos, enxugando o suor na testa. O jovem colega de time Sultan, 12 anos, que se criou a poucos passos do estádio, demonstra igual entusiasmo. "Foi um ótimo dia. Adorei jogar partidas em formato reduzido e conhecer outros jogadores da minha região."
Segundo dados da PFA, 48 mil meninos e 46 mil meninas jogam futebol nos 16 distritos do país (11 da Cisjordânia e cinco da Faixa de Gaza) — um animador celeiro de talentos para uma população de 4 milhões de habitantes. O número mostra que o sucesso do futebol não está fora do alcance do país, desde que sejam oferecidas as devidas condições.
"Os palestinos e palestinas são fascinados pelo futebol", explica o diretor técnico da PFA, Mazen Khatib. "O esporte é jogado todos os dias nos campos de refugiados, e as nossas iniciativas para que ele cresça têm o apoio do governo e do ministro da Educação. A nossa meta é organizar um festival Grassroots por ano para incentivar a participação de mais patrocinadores."
Novos tempos para a seleção nacional
A FIFA, primeira entidade esportiva internacional que admitiu a Palestina como membro (em 1998), tem dado amplo apoio para o desenvolvimento do futebol nos territórios do país. Isso ocorre não apenas por meio de cursos como o Grassroots, mas também com o programa Goal, que já concedeu à Palestina quatro projetos desde 2001, financiando o desenvolvimento de uma sede para a federação, uma escolinha de futebol e campos com gramado artificial em Gaza, Ramallah e Al-Ram.
Essas instalações, aliadas à criação de uma liga profissional masculina, uma liga feminina e o apoio administrativo de uma federação estável, transformaram a frustração pela limitação do desenvolvimento do esporte no país em esperança de dias melhores.
A seleção nacional representa não apenas a população da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, como também a comunidade Palestina espalhada pelo mundo. Apesar da modesta 154ª colocação no Ranking Mundial da FIFA/Coca-Cola e da recente eliminação diante da Tailândia na segunda fase das eliminatórias para a Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014, o técnico da seleção, Jamal Mahmoud, tem uma visão otimista sobre o futuro do futebol no país.
"O nível do jogo aqui está melhorando", afirma. "Os jogadores são jovens e não têm muita experiência, apenas seis deles atuam no exterior, mas a situação está mudando para melhor. O caminho para o sucesso é focar no desenvolvimento do futebol de base e formar técnicos para conduzir o crescimento do esporte."
Após o festival em Nablus, o Grassroots se dirigiu ao sul, até Ramallah, cidade localizada no coração da Cisjordânia. É lá, na capital administrativa do país, que está localizada a sede da federação nacional de futebol, com 70 funcionários, entre eles o diretor executivo, Abdallah Al-Faraa.
Interesse em aprender
"O futebol palestino melhorou muito nos últimos anos, e todos agora estão querendo aprender", afirma Al-Faraa, explicando o entusiasmo que há em torno do esporte no país. "Inauguramos um campeonato profissional com duas divisões que teve como último campeão o Al-Amari, um time de um campo de refugiados que leva este mesmo nome."
A recém-descoberta confiança que os palestinos sentem pelo seu futebol se refletiu em campo em Ramallah, no encerramento do segundo dos quatro festivais. Uma cerimônia de premiação homenageou as crianças e os treinadores pelo esforço demonstrado nas atividades. Aplausos calorosos saudaram os jovens atletas enquanto eles caminhavam para tirar fotos e receber bolas, camisetas e coletes da FIFA como brindes. A seguir, os jovens treinadores receberam certificados de participação.
"Foi uma grande honra ter participado deste curso", comemora Majed, técnico de 24 anos e morador de Ramallah. "Quero ir além do que aprendi hoje aqui, continuando a treinar as crianças palestinas. Afinal, é o futuro do futebol do nosso país que está em jogo."
