Formação, organização e proteção dos jovens

Nesta primeira reportagem de uma série dedicada aos programas de desenvolvimento do futebol juvenil, o FIFA.com foi até a África para saber mais sobre os projetos realizados com as categorias de base no continente. De centros de treinamento a escolinhas de futebol, passando pela proteção dos menores de idade, tudo está sendo feito em prol do crescimento e do desenvolvimento do futuro do futebol africano.

No Marrocos, a formação de jovens jogadores já levou muitos deles a atingirem um alto nível de jogo. No comando da escolinha Mohamed VI, Nasser Larguet, importante personalidade das categorias de base francesas e africanas, diz que conta com recursos e infraestrutura "às vezes melhores do que na França". A prova disso são os resultados obtidos pelas equipes sub-15, sub-17 e sub-19, que lideram as respectivas competições nacionais.

A escolinha reúne 60 jovens vindos de todos os cantos do país e desde 2009 fornece jogadores titulares para as seleções sub-17 e sub-20 marroquinas. "Mas os resultados concretos da formação desses jovens só serão visíveis na Copa Africana de Nações Sub-17, que acontecerá no Marrocos", explica Larguet, que recebe por dia mais de 30 telefonemas de famílias interessadas em enviar crianças para o instituto, que "é majoritariamente composto por jovens saídos de bairros pobres".

Escolinhas de futebol também estão presentes em outros países da África. Na Argélia, a federação nacional recebe financiamento do Estado para contratar técnicos de equipes juvenis de clubes profissionais. A Tunísia e o Egito estão à frente e já possuem centros de formação há uma década, além de estruturas que ajudam a manter jogando em casa as melhores promessas das novas gerações. Resultado, o clube tunisiano Espérance venceu a Liga dos Campeões da África 2011 e a seleção egípcia bateu um recorde ao conquistar três Copas Africanas de Nações consecutivas, entre 2006 e 2010.

Esperança de uma vida melhor
Em Camarões funciona a Kadji Sport Academies, um centro de formação por onde já passaram nomes como Samuel Eto'o, Stéphane Mbia e Nicolas N'Koulou. Desde o ano 2000, Gana conta com o Feyenoord Fetteh Football Academy de Accra, uma escolinha criada em parceria com o clube holandês Feyenoord e que se tornou um caminho para milhares de famílias deixarem a pobreza para trás.

Na África do Sul, os jovens Bafana Bafana se preparam para assumir o lugar deixado pela geração de 2010 com a ajuda de uma iniciativa desenvolvida no Senegal. Criado pelos franceses Bernard Lama e Patrick Vieira e pelo beninense Jimmy Adjovi-Boco, o Diambars funciona em Johanesburgo há dois anos e meio. Essa escolinha de futebol concentra os seus esforços em jovens oriundos de comunidades carentes.

Outro exemplo de projeto bem sucedido que acabou sendo exportado para outros países é a Académie de Sol Beni, um centro de formação de jogadores que funciona em Abidjan, maior cidade da Costa do Marfim. A escolinha foi fundada por Jean-Marc Guillou e fez tanto sucesso que acabou se tornando uma marca, a JMG Futebol, e já abriu filiais em Madagascar e no Vietnã.

Essas iniciativas explicam o aumento do número de jogadores talentosos saídos da África e o sucesso que as equipes do continente têm tido em competições juvenis. "A importância da organização de competições juvenis rigorosas e profissionais, da formação de professores, da presença de médicos próximo aos jovens, da modernização das instalações esportivas e da construção de estádios com capacidade menor são fatores que contribuem para a manutenção das competições locais e para elas serem atrativas", afirma Johan Moreau, consultor da empresa Kurt Salmon, que desde 2003 é parceira da escola Euromed Management na realização de estudos sobre o desenvolvimento econômico do futebol. "Isso faz com que os melhores jovens não sejam incitados a partir", garante o analista.

Contra fraude e corrupção
O ex-jogador da seleção camaronesa Patrick M'boma saiu cedo do país natal, mas é um dos incentivadores mais fervorosos da nova geração africana. "A África está cheia de jovens talentos e isso é inegável", garante o ex-atacante, eleito Jogador Africano de 2000 e com 56 partidas disputadas com a camisa dos Leões Indomáveis. 

"Em Camarões, esse criadouro alimentou a seleção no início dos anos 2000, tempos de bonança com jogadores como Song, Kameni e o jovem Eto'o", recorda M'boma. O ex-atleta, no entanto, explica que o período que viu aparecer vários craques acabou pela falta de estruturas e de organização em nível regional. Para o veterano, a solução para voltar a produzir novos astros dos gramados é "cada escola, colégio e faculdade terem o seu próprio campo de futebol e lutarem contra a fraude e a corrupção, com a ajuda da FIFA e de outras instituições".

A FIFA já realiza um trabalho essencial para o desenvolvimento saudável do futebol juvenil na África, principalmente em relação à proteção dos menores de idade. Diante dos vários problemas associados ao êxodo de jovens jogadores para centros de formação no exterior, a entidade criou o Transfer Matching System (TMS). O sistema tem como objetivo deter o fluxo ilegal de jogadores. O enquadramento legal para as transferências internacionais de menores de 18 anos é responsabilidade da organização máxima do futebol mundial, uma medida essencial para a progressão do futebol juvenil.

A taxa de solidariedade, ajuda financeira concedida a um clube que forma jovens, já foi criada, mas só será atribuída quando o jovem estiver vinculado legalmente a esse mesmo clube. Em fase de finalização na África — antes de ser estendido ao resto do mundo —, o sistema permite o registro de um atleta desde o momento em que ele é integrado à equipe e o acompanha rigorosamente durante a sua carreira.

"Evitar agentes suspeitos ​​que fazem falsas promessas de contratos às crianças e que muitas vezes as abandonam nas ruas das capitais europeias", afirma o ganês Anthony Baffoe, o primeiro africano a jogar em clube da primeira divisão alemã, referindo-se aos benefícios do TMS. "Os meninos são levados para o exterior sem nem se darem ao trabalho de ler os contratos detalhadamente, contratos esses que muitas vezes são regidos em um idioma que não é o deles", alerta o ex-zagueiro. "Muita gente abusa da inocência e da motivação desses jovens jogadores."