Anti-inflamatórios, solução de curto prazo
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Tamanha é a velocidade e a competitividade nas divisões de elite do futebol atual que os atletas já não se surpreendem com eventuais hematomas, pancadas ou distensões sofridos na tentativa de escaparem de um carrinho ou roubarem a bola do adversário. Contudo, diante da perspectiva de ficarem de fora das próximas partidas do time em função dessas lesões, muitos optam pelo uso de medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios para aliviarem as dores e seguirem atuando.

Afinal, considerando que a maioria dos clubes e seleções dispõe de reservas ávidos por uma oportunidade, caso um dos titulares perca a vaga na equipe por conta de uma contusão, é compreensível a ansiedade dos jogadores frente à possibilidade de que ficar de fora de algum jogo acabe se transformando em uma temporada no banco ainda mais longa.

Embora o uso de analgésicos possa ser útil no curto prazo, permitindo que o atleta entre em campo e reduzindo o desconforto sentido durante a partida, a camuflagem dos sinais de alerta enviados pelo corpo pode ter efeitos colaterais potencialmente perigosos e colocar em risco o futuro profissional do jogador e, sobretudo, a sua saúde no longo prazo, mascarando problemas mais graves.

De acordo com um estudo publicado recentemente pelo Centro de Avaliação e Pesquisa Médica da FIFA (F-MARC), atletas e departamentos médicos não estão prestando atenção suficiente aos perigos relacionados ao uso excessivo de analgésicos (termo genérico para medicamentos que ajudam a aliviar a dor, abrangendo desde pomadas anestésicas até morfina) e anti-inflamatórios não esteroides (medicação usada para reduzir a reação inflamatória que causa dor).

Na pesquisa, realizada durante a Copa do Mundo da FIFA 2010, o Departamento Médico da entidade pediu aos médicos das 32 seleções participantes que apresentassem uma lista dos medicamentos tomados pelos jogadores nas 72 horas anteriores a cada partida. Os resultados mostram que eles estão utilizando mais analgésicos do que nunca: 34,6% dos atletas que disputaram o Mundial tomaram anti-inflamatórios não esteroides antes dos jogos, contra 29% em 2006.

"Os resultados são impressionantes", diz o diretor médico da FIFA, professor Jiri Dvorak. "Até mesmo na categoria sub-17, entre 20% e 25% dos jogadores tomam anti-inflamatórios e analgésicos, números que sobem para 30% e 35% entre as seleções participantes da Copa do Mundo."

Efeitos colaterais
Outra conclusão surpreendente do estudo foi a enorme variação nos níveis de utilização dessas substâncias pelas diversas seleções. "Em uma equipe não havia um único jogador usando anti-inflamatórios não esteroides antes dos jogos, enquanto noutra equipe, 22 dos 23 integrantes do plantel estavam tomando algum tipo de analgésico antes de pelo menos uma das partidas", explica o médico Philippe Tscholl, um dos autores do estudo. "Alguns jogadores relataram inclusive que haviam tomado até cinco anti-inflamatórios ao mesmo tempo."

Entre os anti-inflamatórios não esteroides estão medicamentos vendidos sem receita médica, como aspirina, ibuprofeno e naproxeno. No entanto, a utilização frequente dessas substâncias é causa de preocupação entre os fisiologistas do futebol.

"Os anti-inflamatórios podem ter efeitos negativos no funcionamento do fígado e dos rins, especialmente nos casos em que uma medicação específica é usada por muito tempo", diz Dvorak. "Alguns medicamentos podem ainda causar irritação no aparelho gastrointestional, o que pode levar a hemorragias internas de diversas magnitudes."

O uso de anti-inflamatórios não esteroides é tão difundido no futebol atual que, em muitos vestiários, tomá-los faz parte da rotina pré-jogo dos atletas — tanto quanto amarrar as chuteiras. "Alguns jogadores provavelmente estão tomando esses medicamentos sem a prescrição dos médicos da equipe, ou seja, estão apenas tomando e avisando ao fisiologista", aponta o diretor médico da FIFA. "Outros fazem uso sob prescrição médica, por estarem sentindo algum tipo de dor ou desconforto. Mas alguns jogadores podem estar tomando esses analgésicos preventivamente, para reduzir a dor causada por algum possível desconforto durante o jogo. Virou uma espécie de ritual pré-jogo para eles. Isso pode ser perigoso."

Uma das razões para isso é o temor de que os analgésicos sejam ainda mais nocivos para esportistas profissionais do que para a população em geral. Em exercícios de alta intensidade como o futebol, os rins do atleta são forçados a trabalhar contínua e intensamente. Por conta disso, os médicos acreditam que esses órgãos ficam mais vulneráveis a danos causados por medicamentos fortes.

Uma questão social
Para o americano Bert Mandelbaum, médico do Los Angeles Galaxy e da seleção dos Estados Unidos, o consumo abusivo de analgésicos e anti-inflamatórios deriva de uma tendência social mais ampla. "Nós médicos não gostamos de correr riscos com o atleta, mas o uso de anti-inflamatórios é onipresente", afirmou Mandelbaum em entrevista à revista FIFA World. "No mundo todo, as empresas farmacêuticas anunciam analgésicos cada vez mais poderosos para dor de cabeça e torcicolo. É um setor que movimenta bilhões de dólares. As pessoas se acostumaram a recorrer a medicamentos vendidos sem receita médica para lidarem com a dor, e esse quadro só se agrava na área do esporte, onde as exigências de desempenho e as chances de dor e contusões são maiores."

Apesar desse uso difundido, o médico faz um alerta aos jogadores. "Nunca fui pressionado a administrar analgésicos ou anti-inflamatórios por parte de técnicos ou dirigentes", acrescenta Mandelbaum. "A maioria dos treinadores com quem trabalho entende que um futebolista precisa jogar durante 90 minutos, já que vira um problema tático para eles se o efeito da medicação passa e eles precisam fazer uma substituição porque o atleta está mancando ou não consegue continuar em campo. A pressão, quando existe, vem dos próprios jogadores. Jogador quer jogar, ponto final. E eles farão qualquer coisa dentro das Regras do Jogo para poderem atuar."

Educação é fundamental
Com isso em mente, o diretor médico da FIFA insiste que a entidade máxima do futebol mundial se concentre no trabalho de conscientização quanto aos riscos da prática. "O nosso dever é orientar as equipes médicas e paramédicas, bem como os jogadores", resume Dvorak. "Eles precisam entender que, quando há dor ou desconforto, significa que algo não está funcionando corretamente. Ao mascarar os sintomas com analgésicos, o jogador corre o risco de estar ocultando algum problema que pode se tornar mais sério no longo prazo. Por exemplo, pequenas lesões de cartilagem podem levar a lesões maiores e estas podem levar ao aparecimento precoce de osteoartrite."

Dvorak foi escolhido para liderar um grupo de pesquisadores formado por representantes do Comitê Olímpico Internacional e da Agência Mundial Antidoping, cujo objetivo é aprofundar os estudos e fazer recomendações com base nesses achados. Uma das questões mais amplas a ser analisada pela equipe é o número ideal de partidas que um atleta deve disputar na temporada, dando sequência a uma enquete informal realizada em maio durante a última Conferência Médica da FIFA, a qual revelou que os médicos recomendam no máximo 60 jogos por temporada.

"Todo indivíduo precisa de tempo de reabilitação e de recuperação, e isso nos leva a perguntas óbvias: 'há um excesso de partidas?' ou 'os atletas estão jogando sob pressão excessiva?'", lembra Dvorak. "Precisamos entender que cada um necessita de um determinado período de tempo para se recuperar. O meu objetivo principal na FIFA é fazer com que o futebol seja promovido como uma atividade que faz bem ao corpo, e isso implica fazer com que os jogadores sejam tratados como seres humanos, não como mercadorias."